sexta-feira, 19 de outubro de 2012

‎"queria fazer o mais lindo poema
mas que ele não me rasgasse tanto por dentro
que minhas entranhas não sentissem incômodos a
cada nova (fa)(pa)lavra 
nascendo-sangrando dentro de mim

a matéria talvez tenha sido inútil nos últimos tempos
para que poesia e poetas?
(des)caminhos por onde jorrar um não-ser infinito

calo o falo
com uma voz feminegrocêntrica pulsante
urgente
em meio a uma multidão miniaturizada
deixo que somente minha voz seja ouvida,
na casa que habito

que as ondas sonoras cheguem até onde
a palavra escrita não pode chegar."

v.l.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Presente ou "Nega do cabelo duro"


Acontecia um planeta de colinas em meu mundo,
universo completo e complexo de rochas intransponíveis,
obviamente,
pior ainda, escalamitosamente medonhas,
no entanto minha identidade caminha!

Desesperavam-se alpinistas dos mais esbeltos, sorrateiros,
comuns, de casa, sem casa e ainda mais de entendidos nas cordas.
Seguia-os afoita,
no auge de suas escapatórias medíocres,
na incompreensão das impossibilidades,
identidade ressequia!

Incontáveis açoites de mosquetões, técnicas,
superficiais ou desvanecidamente fundamentais.
Batia minha couraça contra as rochas,
desafogo impróbito em salvar os auges,
um céu somente negro e profundo de rocha,
arenoso, improvável lar de identificação.

Arrebento!

Descalço as sapatilhas calmamente,
tiro toda parafernalha de segurança,
tiro o agasalho, arranco fora a camisa de manga comprida,
finalmente me alivio da pressão das segundas peles,
calças térmicas e lycra para conter o calor,
Tiro também os sutiãs com proteção
e carrego finalmente meus seios fora, ao ar do meu mundo de pedra.
Dou a luz fúnebre meu sexo, livre da maldita calcinha reforçada.
Exponho o meu sexo!

Subo as montanhas como a colina de meu povo fugido,
Os olhares alpinísticos diferem, divergem e se perdem.
Passo caminhar passos largos a feroz liberdade do meu ser.
Ando, caminho e rebolo frenéticamente montanha acima,
parece meu grito de assombrar a natureza vindo a tona,
na velocidade dos meus passos o universo se transforma,
minha mudança de domicílio social começa hoje!
e a montanha termina,
é... existi um fim,
no cocuruto mais alucinante,
nenhum alpinista seria capaz de alcançar,
perdidos em tantas especulações medíocres,
consigo observar além das rochas.
Aqui está a resposta de tudo, o fim das perguntas,
sim!!!
Meu auge é Black Power!


Texto gentilmente enviado por um leitor do blogue, inspirado no "Manifesto do meu cabelo Black Power".

domingo, 5 de agosto de 2012

EU

nao quero mais falar de nada alem de tudo isso que esta dentro de mim
e tudo vem tao rapido
a vida nao me da tempo para respirar fazer pausas e pontuaçoes necessarias
compreenda quando me vir desse jeito
e o jeito que nasci
com erros
cheia de desvios de norma
sem hierarquias

mas com uma imensa ferida rasgando o peito
queimando a agua que insiste em molhar meu pes
queria ter algumas respostas pulsantes
urgentes morro sem encontra las nesse turbilhao em que se transformaram meus sonhos

lindos sonhos
nao    
sonhos loucos
impregnados de controversias exacerbadas
talvez nem tao lindos para serem impressos e colocados na folha de um livro
ou uma página virtual

mas incensos suaves para impelir meus passos
a caminhar adiante cada dia mais

queria ter escolhido o dia e a hora de meu nascimento
outro signo outra perspectiva
mas sou do ar
nao fixe meus pes no chao

Valéria Lourenço. (05/08/2012) às 22h12

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Manifesto do meu cabelo Black Power

Nossa! Parece que foi ontem. Mas já faz quase um ano que resolvi usar o cabelo de forma natural. E isso tem me proporcionado momentos bons e ruins. Afinal, essas são “as dores e delícias de ser o que é”.
*
Desde criança fui obrigada (sim isso mesmo, não me foi dado uma escolha) a conviver com conselhos de pessoas diversas, amigas, próximas ou completamente desconhecidas, sobre os melhores tratamentos para o meu tipo cabelo. E eu, não conseguia ver maldades nos discursos, afinal, além de evitar constantes gozações no colégio, o cabelo mais “maleável” era mais fácil de ser “arrumado” e não requereria de mim tanto tempo na frente do espelho na tentativa de “domar” toda aquela “rebeldia”.
*
E assim fui eu. Crescendo. Gastando dinheiro, tempo e paciência na tentativa de achar algum produto milagroso que se adaptasse ao meu estilo ou mesmo que me fizesse sentir mais bela. Pente quente (sim isso existiu), henê, alisante, tinturas, relaxamento caseiro, relaxamento em salões especializados, escova normal (não a “regressiva”, e sem prancha, afinal, na minha época não tinha isso). Mas enfim, foram muitas as tentativas de chegar a um resultado satisfatório.
*
Entretanto, com o passar dos dias e meses, minha frustração aumentava. Eu não conseguia o efeito do cabelo liso, e quando chegava perto desse resultado via que meu rosto (redondo), não combinava com aquele tipo de cabelo. E quando conseguia relaxar o cabelo, em poucos dias ou meses minhas raízes teimavam em aparecer e entregar aos quatros ventos que toda aquela alquimia não estava funcionando ou que aquela não era eu.
*
Enfim, entro na universidade... momento de grandes descobertas ou redescobertas, prefiro assim. Ao estudar um pouco mais sobre minhas rotas, raízes e minha ancestralidade africana descubro o quanto minha pele e minha identidade foram uma das vias pela qual o colonizador “tentava” me diminuir e me transformar em objeto e assim me dominar com mais facilidade. Discurso na primeira pessoa, pois creio que era eu em algum momento.
*
Depois, com o passar dos anos, vejo que meu estilo de cabelo “Black Power” marcou uma forma de resistência em algum lugar desse louco mundo. Que o diga Assata Shakur. E cá estou eu, hoje, no século XXI, num mundo que se diz tão moderno, onde “pensamos” ser tão livres e resolvo assumir minhas raízes, todas elas.
*
Com um estilo de cabelo Black Power por diversas vezes sou olhada na rua, algumas vezes de forma simpática e alvo de sorrisos de admiração, mas também de olhares de reprovação como se o meu cabelo medisse o tamanho ou a textura da minha personalidade.
Sigo em frente!
Meu esposo e meus filhos acham lindo, me amam do jeito que sou.  Amigas na universidade vêm por vezes me dizer que decidiram assumir os cachos por conta do meu exemplo. Acho isso lindo!
*
Até que certo dia uma senhora me parou na rua e me perguntou como eu fazia pra manter o meu cabelo desse jeito. E respondi: em primeiro lugar a senhora precisa ter uma boa dose de coragem para aturar olhares, risos e piadinhas maldosas. E depois, é mais simples do que todos os tipos de cabelo que já tive. Basta passar a mão para acordar as histórias que estão por baixo de cada fio e com a ajuda de um pente, definir quais os sorrisos e olhares que quero para o meu dia. E além disso, a sensação proporcionada ao acordar e me olhar no espelho e ver que meu cabelo quer subir cada dia mais, sem se importar com quem está parado olhando minha vida, meu cabelo e o tempo passar, é indescritível.
*
E quando me perguntam se vou deixar meu cabelo assim pra sempre. Respondo que pra sempre é muito tempo, mas é bom saber que posso ter meu cabelo natural, enrolado, escovado, vermelho, loiro, curto, longo, trançado, porque hoje me dou as opções que não me deram na infância. Talvez por conta do tom da minha pele, tenham guardado esse segredo: a mulher negra pode ter ou usar o cabelo que quiser. Não sabiam que a pele preta combina todas as cores em uma só.
E assim sigo com meu “pixaim elétrico” eletrizando as cabeças e os olhares que encontro em meu caminho, iluminando a trilha da minha vida.

Valéria Lourenço. 22/07/2012 às 19h 03

quarta-feira, 30 de maio de 2012

(Ab)alo

Cismo,
E a sismologia dentro de mim se instaura
Eruptantes ideias de vozes
Ancestrais
Recorrentes primaveras
Desnuda.
Alma apocalíptica
Embalo espinhos para engoli-los da melhor forma
Comprimidos
Comprimidos desejos
Buscam a efervescência
Velocidade descontrolada
Sem limites.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(Per)corro cada caminho, ermo,
na ânsia de pisar teus passos
o certo e o errado delimitam
os espaços, os corpos
Não posso sucumbir o desejo de consumir você,
me encontrar num labirinto,
me perder num caminho
Na loucura da paixão encontrar a paz
que me move
comove
Certo, errado,
corpos,
espaços unlimited.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Palavras-pássaro


E indo...

Leva nos lábios a esperança de almas

Palavras podem ser ditas em segredo

Ornadas te levam ao topo do céu

Vais...

Alimentando os famintos desce pelos templos

Enches as casas de luz

Faz crescer memórias,

Novos fios de infinito

Sejas...

Semente-alimento

Semente -esperança

ARQUITE(N)TANDO


não há como ser inteira

em algo que requer metade

feridas curam

remédios envenenando

a alma

utilizo palavras para

(re)construir castelos

mas um simples sopro

é capaz de derrubá-lo

construo

arquiteto sonhos

projeto

esquadrinho

preciso refazer a planta do meu coração.

29/04/2012


Vermelho

Periferindo
O escarlate do meu coração
A caverna a céu aberto
entremeada de nomes a demarcar territórios
pinturas modernas me corroem os sentidos
pequenos vermes
onde está meu urucum? Sangue-guerreiro
E a multidão a se banhar nas ondas da paz.

Abril/2012

sábado, 17 de março de 2012

Retornando ao blogue

A síndrome de Bartleby me acomete. Ora essa! O escritor que já não aguenta mais escrever. Isso existe?
Tenho a impressão de que todas as coisas já foram ditas e uma voz tão fina não consegue fazer eco frente ao barulho horrendo que jorra desse escuro abismo denominado mundo.

Serão necessários muito mais do que mil silêncios para calar essa ânsia que pulsa, essa vontade de explodir que se acalma quando se está num divã de 87 teclas ou de escrita grafite.

Ah! Ao menos lembra-se que toda a voz que ecoa é um somatório de vozes. E se o silêncio persistir, releia o que já escreveram e deixe pergaminhos para que futuros sons possam ser balbuciados.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pixain

Em pequena era indiferente ter a pele da cor que tivesse/Mas a crueldade anda arrodiando a gente/e no de repente o fato se torna incômodo/sabão, esponja e força nos braços tentam trazer outra tonalidade à superfície,/talvez quem saiba, emergir o vermelho-sangue do coração bate-batendo-assim-assim/mas uma passadela em frente ao espelho/e mostra-se o lindo retinto/luzindo/ preparo o caldeirão fervendo com o líquido que me espera/banho de betume, piche, picha, pixain...

Valéria Lourenço (01/12/2011)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Índio-afro-branco descendente

 No navio viemos,
kalunga a nos buscar,
para construírmos um país
onde não tinhamos lugar
Nossa escola foi o pelourinho, Quando aqui chegamos
A senzala nos aguardava, o engenho nos chamava,
A liberdade nos espreitava,
Para os quilombos fomos marchando
Sem posses, Sem laços, Sem família,
raça impura, sem religião
Esse foi o argumento do branco
quando nos trouxeram num porão
Nossa religião, às escondias sobreviveu
Golpes disfarçados, rodopios rasteiros
num passo ritmado da cadência da dança,
capoeira nasceu
Muxoxo, Samba, Acarajé
Palavras que permeiam o dia-a-dia brasileiro
Estamos na comida, no folclore,
Na dança, no terreiro

Não há medo do novo
Novos desafios se (re) erguerão,
Encontraremos novos lugares,
Mas há mais de 100 anos foi abolida a escravidão?!
Uma lei para ensinar nossa história
Não apagar nossa memória, assim colocaram
Espaço na universidade, reservas de “generosidade”
Mas nosso saber está difundido,  querer, só a dignidade
Desde o navio negreiro,
Muitos pretos novos ainda hão de morrer,
Antes nos portos, e senzalas, agora, nas favelas,
Em muitas ruas e becos,
Avenidas e vielas

Por que quem olha do centro
Me chama de periferia,
Mas periferia pode ser você,
Tudo depende do olhar de quem vê
Negra cor, Cabelo pixaim
Sorriso de alegria tão igual a mim
África- mãe, Zumbi meu pai
Criaram um filho que crescendo vai
Vemos a vitória de um povo
Povo que nasceu vencedor
Sangue indío-afro-branco descendente
cafuso, mulato, confuso, brava gente, brasileiro por amor.

Valéria Lourenço.

P.S.: Esta poesia recebeu uma Menção Honrosa (22/11/2011) entre 187 poesias inscritas no X Concurso de poesia da Prefeitura Municipal de Duque de Caxias.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Confidência - Mia Couto

"Confidência"


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça


Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno


Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci


Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos


No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nube blanca

Branca nuvem chegaste,
Olhos dourados cintilando alegria
Palavras em compasso
Pensamentos em harmonia.

Primaveras que chegam juntas
Andam na contramão
Histórias infinitas
Sonhos na mesma direção.

Branca nuvem, onde andaste?
Só agora a encontrei
Estarás sempre perto
Nossos passos (in)certos
Mas por ti esperarei.

Valéria Lourenço.
19/06/2011 às 16 h

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

aMar o Mar

Como deve ser reunir todo o azul do mar em um único ser?
O frescor, a liberdade, a leveza
Ondas energizantes, que revigoram e balançam
O corpo trêmulo,
Palavras lavrando, umidificando a terra seca, desejosa de ser
Alimentada.
O mar se achega e de mansinho se apossa desse
Pedaço de deserto
Sendo capaz de fazer brotar da mais louca imaginação
A mais voraz admiração.

Valéria Lourenço 29/09/2011

domingo, 18 de setembro de 2011

Independência - 07/09/2011

(In) dependência
de valores, de beijos, de abraços, de carinhos
a janela do mundo está aberta, a porta da casa
derrubada, construindo, metamorfoseando, abandono a fôrma,
a forma,
a métrica?

Meu pé tem vida própria.


Valéria Lourenço.

domingo, 14 de agosto de 2011

Somália - África

Estados Unidos da América, supergrande prepotência
Crianças morrem de fome na África,
Europa,  raça pura, velho mundo,
Morrem de fome na África,
Insurreição árabe, o mundo de cabeça para baixo,
Fome na África,
a África continua embaixo.

Mulheres pretas, secas, olhos magros, choro sem lágrimas
O filho suga o leite que já não alimenta, pois o alimento
que um dia tiveram, foi sugado por um povo superior
Por quê ajudar o que destruímos?

Crianças (...)
Crianças com bocas sedentas de algum líquido precioso
que jorre do chifre africano
Olhos nus repletos de esperança,
O líquido azul que salva o gado e cria a vida
Vai (...) espere meu doce infinito.
Não agora será tua aquela cova

De meus olhos jorram algum líquido inodoro e insípido,
repleto de vergonha.
A carne cortada pela vaidade, o meu futuro me aguarda brilhante (...)
Miserável. Ai de mim.
Seguiremos sempre aqui cantando com nossos egos,
seres supergrandes prepotentes
E tu?
Pra quando África?
Até quando África?

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Lembranças fugidias

Moisés sempre foi sonhador. Quando adulto tornou-se trabalhador, mas os sonhos... Ah, estes ele deixou cair pelo caminho.
Casado permaneceu com Maria, seu grande amor desde a tenra idade, por mais de 60 anos. Juntos construíram uma linda família, perdeu uma única batalha na vida: o filho para as drogas. Mas ainda assim, com uma vida humilde, seguiam cada qual sua função de cidadãos no mundo. Um casal amoroso com duas filhas e quatro netos.
Mas uma hora a mente cansa. E o primeiro sinal de cansaço muitas vezes não se dá no corpo, mas sim na alma, na memória. Conversar com o Sr. Moisés era sempre tão bom. Ele sempre a contar histórias sobre sua vida na roça, a construção de sua modesta casinha e a alegria de estar vivo mesmo quando muitos dos seus já se foram. As tristezas do mundo iam preenchendo aquela cabeça branca e aqueles olhos já exaustos de tanta miséria em sua volta. Um dia, não sabemos se por vontade própria ou pelo cansaço da mente, Moisés já não se lembra mais do caminho de sua casa. Este lar, que até então, com seus 83 anos, era um porto-seguro quando vinha das suas andanças - ele sempre foi dado a caminhadas – agora se transformara num lugar desconhecido. Passava em frente ao seu portão e já não entrava, pois não se sentia mais pertencente àquele lugar.
Os sonhos de ganhar o mundo voltaram, mas agora já era o corpo que estava cansado. Saía de ônibus pela manhã e não chegava. A família, que sempre fora muito conhecida da região, acabava recebendo-o em casa pelas mãos de alguma alma caridosa que reconhecia aquele velho negro de cabelos brancos de algum lugar de sua infância. As saídas foram ficando mais frequentes, mas as chegadas cada vez mais demoradas. Não havia tantas almas caridosas assim no mundo e o velho Moisés não era tão conhecido a ponto de rodar todo o Rio de Janeiro e ser reconhecido todo o tempo.
Para aquela que foi sua amada durante mais de sessenta anos, a decisão a ser tomada foi difícil mas necessária: privar da liberdade o homem com quem ela viveu por mais de meio século. A tarefa árdua coube a ela, a única de quem ele não esquecia o nome. E ali, trancado num quartinho nos fundos da casa, ele gemia. Gritava e implorava por socorro ao mesmo tempo em que dizia lindas palavras de amor para o amor de toda a sua vida.
Ali, longe do mundo e de suas andanças, o coração parecia parar, acalmar-se, e acalmava-se tanto, a ponto de ele recordar-se de coisas de sua infância. Chamava pela mãe, pelo pai, pelos irmãos que já não se encontravam neste plano terreno, mas era incapaz de reconhecer o rosto da filha que ia levar-lhe o calmante.
A família chorava. Lágrimas conjuntas de esposa, filhas e netos. A dor era insuportável para todos. Decidiram, devido ao grande amor que sentiam por ele, interná-lo numa casa que tivesse o tratamento adequado para lembranças fugidias.
O pobre Moisés, parecendo perceber o que estava por vir, decidiu acalmar-se neste dia. Jurou, ouvindo as conversas decisivas que vinham de dentro da casa, que não gritaria mais, porém os nomes ainda era incapaz de lembrar.
Pediu por socorro durante toda aquela noite. Pela manhã, finalmente a alma descansou.

Texto produzido para o curso de compreensão textual - CEEP/UFRRJ/IM

Imperialismo cultural – Adriana Lisboa


A vida íntima
de uma menina de dez anos
na Somália (Somália é qualquer lugar
neste mundo, neste mesmo mundo):
o clitóris e os lábios vaginais são decepados
a menina é costurada em seguida, deixando-se
apenas uma pequena abertura para a urina e a
menstruação
a menina é imobilizada até que a pele grude
entre suas pernas
e no dia em que estiver pronta para o sexo
seu marido
ou uma mulher respeitada na comunidade
vai abri-la de novo, cortá-la
como se corta uma fruta, como se corta
a aba de um envelope que traz um documento
importante
como o avião corta a nuvem
como a nuvem corta o céu.

O Globo - Caderno Prosa & verso 30/07/2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O louco - Khalil Gibran

 

            Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

            Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
            Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
            E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
            Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
            Assim me tornei louco.
            E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O homem e o outro


A história da humanidade é marcada pela suposta supremacia de uma “raça” em detrimento de outra. A dicotomia “inferioridade versus superioridade”, sempre foi um pressuposto para que o colonizador de ontem e o de hoje nadificasse o ser humano e tornasse este, produto de manipulação daquele. Nos dias atuais, o homem ainda coisifica o seu semelhante e tem a cada dia exterminado sua própria espécie.
Durante a evolução do homem, o outro sempre foi o ponto de partida para grandes catástrofes que tingem de vermelho a história do homem sobre a Terra. As grandes guerras mundiais e o nazismo de Hitler, a escravidão dos africanos, o extermínio dos indígenas, o apartheid sul-africano das décadas de 70 e 80 e o apartheid mundial da atualidade. Todos esses eventos foram, e são, frutos de uma mentalidade do colonizador onde o outro sempre foi visto como nada.
A triste constatação se dá pelo fato de que o colonizador, não é mais o branco ou o capitalista imperialista. Mudando nossa perspectiva do modo macro e trazendo-a para o micro social, perceberemos, com nitidez, que o fenômeno de banalização da vida humana está presente ao nosso redor durante todo o tempo. E suas conseqüências têm tido efeitos graves em nossa sociedade hodierna.
Diariamente os exemplos dessas consequências nos chegam através dos noticiários. Pais que assassinam seus filhos, filhos assassinando pais, políticos assaltando cofres públicos e assassinando milhares de pessoas nas filas dos hospitais e o futuro educacional de milhares de crianças. Jovens de classe média que se sentem no direito de agredir uma mulher por conta de uma suposta impressão de que esta poderia ser uma prostituta e ainda agridem, como se estivessem participando de uma simples brincadeira, alguém que não tem a mesma opção sexual que eles, são alguns dos exemplos tristes e próximos.
Ora, vimos que nada mudou desde os séculos passados até agora. Poderíamos deixar que o “homem das cavernas”, os indígenas, os nativos das tribos africanas, ensinassem para  nós, homens “desenvolvidos”, como  (con)viver em sociedade de forma “civilizada”, respeitando o  próximo.
Enfim, a partir do momento em que o homem olhar o seu próximo não mais como o outro, mas como uma extensão de tudo o que ele é, e se permitir misturar e intercambiar experiências, não haverá superiores ou inferiores, seremos iguais, e começaremos então a repartir o pão, sentaremo-nos em rodas para que um griot conte-nos uma história, faremos pinturas corporais como símbolo do amor, e utilizaremos, também, a escrita para (re)escrevermos a nova história da humanidade.


Texto produzido para o curso de compreensão textual - CEEP/UFRRJ/IM
Tema: A nadificação do outro