quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Desiderata - Max Ehrmann


Viva tranqüilamente, por entre a pressa e os ruídos, e lembre-se de quanta paz há no silêncio. Tanto quanto possível, sem se render, esteja em bons termos com as pessoas.
Diga sua verdade calma e claramente, e ouça os outros, mesmo os mais medíocres e ignorantes – eles também têm a sua história.
Evite as pessoas espalhafatosas e agressivas, pois essas são um insulto ao espírito. Não se compare com os outros, para não se tornar vaidoso ou amargo, e saiba: sempre haverá pessoas melhores e piores que você. Desfrute tanto de suas realizações quanto de seus planos.
Cultive seu trabalho, mesmo que ele seja humilde; esse é um bem real, frente às variações da sorte. Seja cauteloso em seus negócios, pois o mundo é cheio de armadilhas. Mas não deixe que isso o torne cego para a virtude, que está sempre presente; muitas pessoas lutam por ideais nobres e, por toda a parte, a vida é sempre exemplo de heroísmo.
Seja sempre você mesmo. E sobretudo nunca finja afeição. Nem seja cínico em relação ao amor, pois, apesar de toda a aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.
Aceite serenamente os ensinamentos do passar dos anos, renunciando suavemente àquilo que pertence à juventude. Fortaleça seu espírito para que ele possa protegê-lo diante de uma súbita infelicidade. Não antecipe sofrimentos pois muitos temores são apenas fruto do cansaço e da solidão. Mesmo seguindo uma disciplina rigorosa, seja leniente consigo.
Você é filho do Universo, tanto quanto as árvores e as estrelas; e tem o direito de estar aqui. E mesmo que isso não seja muito claro para você, não tenha dúvida de que o Universo segue na direção certa.
Portanto, esteja em paz com DEUS, não importa a maneira como você O concebe, e sejam quais forem as suas lutas e aspirações, na terrível confusão que é a vida, fique em paz com sua alma.
Pois, apesar de toda a falsidade e sonhos desfeitos, este ainda é um lindo mundo. Seja cauteloso. Lute para ser feliz.

Ehrmann, Max. Desiderata. Tradução de Iva Sofia Gonçalves Lima. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

sábado, 25 de dezembro de 2010

25/12/2010

Então é Natal...
Exatamente no dia em que os homens estão mais sensíveis, minha voz resolveu calar-se.
Sinto-me "o estrangeiro", nada me comove, culpa de Camus que me apresentou Meursault.
Não me importa que hoje é Natal, Cristo nasce todos os dias dentro de mim e isso me basta.



Sem que haja uma necessidade de combinar dias para fazer minhas postagens, exponho aqui um texto interessante que encontrei durante uma visita ao blogue do Nei.

AS REINAÇÕES DE MONTEIRO LOBATO (por Joel Rufino dos Santos)

O escritor Monteiro Lobato não era tão inocente quanto andam dizendo por aí, em meio à polêmica sobre a suposta censura que sua obra estaria sofrendo. Vejamos.

Em 1944 publicou o livro A Barca de Gleyre, que reúne, em dois volumes, cartas por ele enviadas ao escritor mineiro Godofredo Rangel entre 1903 e 1943. Em uma delas, o “sobrinho” da Tia Nastácia assim se manifesta sobre o povo dos subúrbios cariocas:

“Estive uns dia no Rio (...). Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi ?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!... (in A barca de Gleyre. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Disponível em: http://www.neilopes.blogger.com.br/. Acessado em 25/12/2010 às 10:10 hs.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Versos de Natal - Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta. (1939)

Versos de Natal in: BANDEIRA, Manuel. Bandeira de Bolso: uma antologia poética / Manuel Bandeira; organização e apresentação de Mara Jardim. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Literatura e eu

Por quê escrevo?
Não sei. Às vezes penso que é melhor ler do que ouvir minha voz.
Será que escrevo para você ou para mim ?
Sinto romper, quebrantar meu coração.
Preciso falar, mas será que me ouviria?
Sua voz sempre corta a minha.
Sim, é isso mesmo que quero.
É a literatura na veia.
Vou pagar um preço?!
Ah! Mas disso já sei, já estou pagando.
E não me importo.
Vou até o fim.
É muito mais forte que eu.
E a cada novo horizonte que vislumbro, meu coração pulsa ainda mais
forte e ganha um novo fôlego.
Se quiser me acompanhar ainda tem espaço por aqui,
mas por favor não tente me parar.

Minha gênese.

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconformismo inconciliável e este é o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem quer ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me sim ou não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raro são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

PEPETELA. Mayombe. Lisboa: Dom Quixote, 1997 apud DUTRA, Robson. Pepetela e a Elipse do Herói. Luanda: UEA, 2009.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Viagem literária

Uma viagem com letras, teatro, cinema, música e muita emoção.
Com este roteiro em mãos, parti em busca de novos horizontes.
Iniciei esta viagem literária com Ana C., uma carioca cheia de graça e sem papas na língua.
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De repente, durante os primeiros passos da viagem,
o inesperado aconteceu, amor à primeira vista,
um alemão alucinado - W. B. - que estará ao meu lado durante
muitos anos de minha vida, roubou meu coração.
E as surpresas continuariam; Ana me manda Caio Fernando, um de seus melhores amigos para mostrar que o Zézim poderia ser eu.
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Dancei um belo tango com Sabato, em Nova Iguaçu, pela manhã.
Nas terras de Kublai Khlan fiz uma pequena viagem pelas Cidades de Calvino, e pelo olhar de Marco Polo conheci e me rendi aos encantos de Zora, uma cidade tão visível a ponto de ensinar que viver requer movimento .
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Retornei ao Rio de Janeiro, e no palácio do Catete senti amor e ódio por Getúlio. E como nunca conseguimos visitar todos os lugares interessantes durante uma viagem, não pude conhecer os procedimentos de César Aira. Mas redimi minha culpa ao descobrir com Camus que eu não preciso viajar ou ir tão longe para me sentir um estrangeiro.
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Segui meu caminho e encontrei pessoas interessantes como Hanna e Macabéa que tinham em comum o desejo de ser floração. Já findando a longa jornada, (re)encontrei um carioca de alma nordestina que me apresentou à Guerra de Canudos, e tão rica quanto a linguagem de Euclides descobri e me emocionei com o Cárcere de Graciliano.
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Chegando ao meu destino provisório, havia uma Bella senhorinha de tênis me esperando para me apresentar um ícone da literatura hispanoamericana. Jogo as malas no chão, e meu coração por um breve espaço de tempo descansa ao saber que Borges também imaginou que o paraíso era uma grande biblioteca.

 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Nocturnamente - Mia Couto



Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

terça-feira, 30 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Oreretama


Quarta-feira, plena quarta, tempo chuvoso e lá vou eu, às nove horas da manhã, ao Centro do Rio fazer um passeio pelo Centro Histórico da cidade com a turma de Turismo da UFRRJ.
Seria até bom, caso não fosse um passeio “forçado”, para complementar as 12 horas da Disciplina também “forçada” AA013 – Seminário da Educação e Sociedade -  e até pelo fato de que fiz passeio similar há poucos meses atrás.
Então lá vamos nós.
O ônibus chega e  me agrada o dinamismo dos alunos de Turismo em fazer uma dinâmica para apresentar-mo-nos. Dentre os estudantes há presença do curso de História, Pedagogia, Matemática, Letras e Turismo, claro. Contagem feita. Apresentações findas e partimos rumo ao nosso destino.
Primeira parada, Museu Histórico Nacional, surpresa. Primeiro porque era um lugar que eu ainda não havia visitado e segundo... Ah, porque lá estava nosso oreretama, sim o nosso lar em tupi, e assim o dia começou a tomar outra forma. Lembrando-me da flânerie, passei a olhar os lugares pelas lentes de Benjamin e não precisei recorrer à “experiência dante e petrarca do haxixe” para remeter-me a um tempo anterior.
Tudo mudou, o olhar mudou ao andar pela Praça XV admirando o Chafariz de Mestre Valentim, parar em frente ao Paço Imperial e saber que ali, em 1888, foi o início da minha libertação. Sensações, emoções, tudo ali tão visto, tão comum, mas nada pode ser comum ou normal depois que você encontra Benjamin e Baudelaire entrelaçados num mesmo livro.
Flanando, sinto-me em meio à obra Machadiana, recordo Mariana e Sofia caminhando pela Rua do Ouvidor. Vejo Lima Barreto e Domingos Ribeiro Filho conversando sobre suas ousadias em denunciar, através de palavras, tudo que lhes incomodava nessa cidade há tantos anos atrás e que nos caberia ainda hoje.

Enfim, foi um passeio maravilhoso, e como seria bom se todos quisessem e pudessem, olhar nosso oreretama por outra perspectiva. Seja pela lente de Benjamin, Baudelaire, Machado, Lima, Domingos ou mesmo pela própria lente, mas que ao perceber cada detalhe que sinta o quanto de história pode ter esse lugar, quantos pés por ali caminharam, quantas pessoas por ali passaram para que alguns de nós estivéssemos aqui, lembrando-se da nossa rica história, de cada fato importante que  ali ocorreu. E quem sabe assim, essa cidade seria um pouco mais Maravilhosa?!

Foto: Paço ImperiaL - RJ

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mostra Brasilidade - CCJF / RJ

Programação CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL/RIO DE JANEIRO
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro
cep:20040-009 – Rio de Janeiro- RJ
Até 01 de dezembro.
Fonte: http://mostrabrasilidade.wordpress.com/centro-cultural-justica-federal/programacao/
CURADORIAS: PROGRAMADORA BRASIL, DOC TV CPLP, DOCTV BRASIL.
E CHAMADA PÚBLICA CPLP (filmes brasileiros e estrangeiros inscritos na chamada pública)
Modalidade: SESSÕES DE FILMES & DEBATES

Terça-feira, 23 de novembro

14h – O Judeu (Brasil)
16h – Eugênio Tavares, Coração Crioulo (Cabo Verde)
O Rio da Verdade (Guiné-Bissau)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)

Quarta-feira, 24 de novembro
14h – Língua – Vidas em português (Brasil)16h – Timbila Marimba Chope (Moçambique)
Nos Trilhos Culturais da Angola Contemporânea (Angola)
18h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
Victor Lopes (Brasil)
20h – Tchiloli – Identidade de Um Povo (São Tomé e Príncipe)
21h – Timbila Marimba Chope ((Moçambique)

Quinta-feira, 25 de novembro
14h – Li Ké Terra (Portugal)
O Restaurante (Macau)
16h – DEBATE com realizadores do DOC TV CPLP
18h – Exterior (Brasil)
Uma Lulik (Timor Leste)
20h – Morro do Céu (Brasil / RS)
21h – O Rei do Carimã (Brasil / SP)

Sexta-feira, 26 de novembro
14h – Estado de Seca (Brasil)
Mais que a terra (Brasil)
16h – Segunda Feira (Brasil)
A Grande Feira (Brasil)
18h – O Crime da Imagem (Brasil)
Cinema, Aspirina e Urubus (Brasil)
20h – Avenida Brasília Formosa (Brasil / PE)
21h – HU (Brasil / RJ)

Sábado, 27 de novembro
14h – Macunaíma (Brasil)
16h – Almoço Executivo (Brasil)
A Marvada Carne (Brasil)
18h – Um Dia na Rampa (Brasil)
Bahia de Todos os Santos (Brasil)
20h – Negros (Brasil / BA)
21h – Álbum de Família (Brasil / BA)

Domingo, 28 de Novembro
14h – Iracema, uma transa amazônica (Brasil)
16h – Especial Vídeo nas Aldeias (Brasil)
Cineastas Indígenas
Mokoi Tekoá Petei Jeguatá – Duas Aldeias, Uma Caminhada
18h – DEBATE com realizadores do Vídeo Nas Aldeias
20h – Carta Sonora (Brasil / SP)
21h – Jesus no Mundo Maravilha (Brasil)

Terça-feira, 30 de novembro
14h – Carmem Miranda
Carmen Miranda: Bananas is My business
16h – Os Anos JK – Uma Trajetória Política
18h – Divina Previdência
Cronicamente Inviável
20h – Periferia.com (Brasil / SP)
21h – Bagatela (Brasil / SP)

Quarta-feira, 01 de dezembro
14h – Segunda Feira
A Grande Feira
16h – Carolina
A Negação do Brasil
18h – Serras da Desordem
20h – DEBATE A Brasilidade no Cinema Brasileiro

Fonte: http://ricardoriso.blogspot.com

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luxo extraordinário



O documentário "Lixo extraordinário", que mostra um pouco do trabalho de Vik Muniz, atual Midas das artes plásticas, junto a catadores de lixo de Gramacho (Duque de Caxias), está entre uma das 15 obras que concorrem a uma indicação ao Oscar 2011. Dirigido pela britânica Lucy Walker e pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley e com produção executiva de Fernando Meirelles, o documentário já ganhou prêmios importantes no cenário do cinema mundial em 2010, como no Festival de Sundance e no Festival de Cinema de Berlim.
A maior parte das obras de arte de Vik Muniz é feita de materiais simples como geléia, açúcar, calda de chocolate e LIXO.


Obra: Menino no lixo (Vik Muniz)

sábado, 20 de novembro de 2010

Súplica - Noémia de Souza

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
- mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso...

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

- Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Fonte: “Sangue negro”, Noémia de Souza, Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1988, p. 37.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Freud e eu

Andava distante, tão distante do mundo
E Freud logo ali,
Conectado a 600 kbps

Deitada em seu divã
Analisas minha Psique,
Revelo minhas fobias, neuroses.

Alimentas meus Sonhos,
(Id)entidade sublime,
Ego, Superego
Penso ser Eros,
Reconheço ser pura e simplesmente Libido.
Explica-me Freud, explica-me.

18.11.2003...18.11.2010



18.11.2003 ...

Ainda faltava um mês para você vir ao mundo.
E de repente me perguntam: Qual será o nome mãe?
E eu sem saber o sexo respondo: Vitor ou Vitória.
Então às 18h11min chega minha Vitória.
Magrinha, frágil, sem poder ir para casa durante um mês.
E lá estou eu, mamãe aos 21 anos, cheia de medos e incertezas.
Como educar um filho?  Como ensiná-lo sobre a vida?
Passam-se os dias, os meses, você se torna forte, e eu descubro que a tarefa de ensinar não é minha, mas sua.
Cada dia que você abre os olhos, a cada nova palavra, a cada conquista, você me ensina o quanto a vida é maravilhosa.
Deita-se escondida para ler “Numa e a Ninfa”, fica ouvindo pelos cantinhos minhas aulas sobre Walter Benjamin, lê suas histórias para que eu interprete-as, diz que o dicionário é seu livro preferido, dá nome ao meu blogue e dá sentido à minha vida.
Descubro que nunca vou ensiná-la com palavras, mas com ações, e tenho medo, pois o ser humano é imperfeito.
Porém à noite, sempre que faz suas orações e lembra-se dos meus sonhos, eu tenho a mais absoluta certeza, de que você é a extensão da minha vida, mesmo que eu não seja a mãe mais perfeita do mundo.
És tudo o que quero ser.

Obrigada filha.

sábado, 13 de novembro de 2010

Valerie - Steve Winwood

http://www.youtube.com/watch?v=anCg5EiB2AM&feature=player_embedded


Valerie (Tradução)

Tão selvagem, ali
com suas mãos em seus cabelos
Eu não posso deixar de lembrar
apenas quando ela me tocou
Não há ainda nenhum rosto
aqui no nosso lugar

Tão fresca, ela era como
Jazz num dia de verão
Música, alta e doce
Então, ela simplesmente soprou longe
Agora, ela não pode ser tão quente
com o vento em seus braços

Valerie, chame por mim,
Chame por mim, Valerie
Venha e me veja
Eu sou o mesmo garoto que eu costumava ser

Canções de amor preenchem a noite,
mas elas não dizem tudo
Não como o choro dos amantes
como se estivessem morrendo

Pendure lá seus gritos
no tempo, em algum lugar
Algum dia, algo de bom
o vento poderá soprar de volta para mim
alguma noite, eu
aqui, como ela costumava ser
Agora, ela não pode ser tão quente
com o vento em seus braços

Valerie, chame por mim,
Chame por mim, Valerie
Venha e me veja
Eu sou o mesmo garoto que eu costumava ser

Tão fresca, ela era como
Jazz num dia de verão
Música, alta e doce
Então, ela simplesmente soprou longe
Agora, ela não pode ser tão quente
com o vento em seus braços

Valerie, chame por mim,
Chame por mim, Valerie
Venha e me veja
Eu sou o mesmo garoto que eu costumava ser

Eu sou o mesmo garoto que eu costumava ser

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Carta ao Zézim

(...) Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
(...)

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. (...)


A carta acima foi enviada pelo autor a seu grande amigo, o jornalista José Márcio Penido, e nela relata a criação do livro "Morangos mofados", fala de sua admiração por Clarice Lispector e Dalton Trevisan e estimula o amigo a escrever.

Extraído do livro acima citado, Editora Agir - Rio de Janeiro, 2005, pág. 152.

Obrigada Jéssica, Jeane, Letícia e Dani (as meninas de Caio).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um breve relato, uma inspiração

Luciana Tito, você me emociona amiga.
Como é bom e alentador saber que as pessoas que buscam algo
de maneira honesta, digna e se dispõem a pagar um preço, alcançam o sucesso.
 Nesse mundo onde o dinheiro e os caminhos mais "fáceis" parecem ditar as regras,
seu exemplo é confortante.
Analisando a vida, a gente observa que seria tudo tão mais fácil e mais tranquilo se
cada um se dispusse a fazer somente a parte que lhe cabe. Somente isso. É a velha máxima:
faça a sua parte.
É real.
Se o professor  se dispôs a ensinar, que dê sua aula da melhor maneira possível.
O médico que se dispôs a cuidar, que o faça com todas as forças.
O político que fez um voto de compromisso com seu eleitorado, que o cumpra na íntegra.
Um pedreiro que se dispôs a construir um prédio ou uma casa, que deposite naquele trabalho, o seu melhor suor.
Só isso, nada mais que isso.
Esse não é um compromisso que  assumimos com terceiros, mas sim com nós  mesmos enquanto cidadãos.
É injusto, e também mais fácil,  depositar a culpa sempre no outro, quando deveríamos fazer nossa parte.
Eu quero, devo e vou fazer a minha. Seja estudando, ensinando, cuidando ou construindo.
P.S.: Luciana Tito, era babá em uma creche, queria mais, estudava nas horas vagas (que eram poucas), passou num concorrido concurso público, é funcionária do Banco do Brasil há 3 meses, estudante de Letras e ainda quer muito mais.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Poema de Mariana Belize. Obrigada Mari, guardado com carinho.

Água que molha meu rosto, à noite
Insônia que mora no meu travesseiro
Água que bebo quando acordo, sobressaltada
Dos pesadelos que me afastam da cama.

Você está dormindo e eu te olhando:
Seus olhos fechados, a respiração calma.
E eu, bebendo a água fria por todos os poros
Sendo o sono na poesia da madrugada.

Você é tão feliz; Você é completo.
Dorme como um anjo,
Caminha em paz sobre as nuvens, amor.

E eu, aqui, no mundo real, agitado, insone:
Órfã da paz, das nuvens, dos anjos.
Só andando, pelo quarto do apartamento.

Mariana Belize.
05.11.2010.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gramatiquices

Gramaticalizando a vida
Decidi: Descrição.
Anseio por crase, LÍNGUA,
Acentuação.

Momentos oxítonos.
Desfaço tuas Dicotomias,
Abalo teu Estruturalismo,
Corpos em Sincronia.


Eu, Monossílabo tônico.
Faço tua Fonologia,
Enuncio tua Diacronia,

Da tua sílaba faço a se-pa-ra-ção,
Conjugo teu verbo irregular,
Só não caibo na Prescrição.

Valéria Lourenço.
04.11.2010
(Durante a aula de Filosofia)

UFRRJ - IM Letras 1º período

É.. realmente a vida sempre nos "prega" peças quando menos esperamos.
Há exatos dois meses atrás, eu no alto dos meus 28 anos, achava que não precisava aprender mais nada, que não aprenderia mais nada na vida, e então inicia-se o mês de Agosto...início das aulas na Rural, turma imensa, quase cinquenta carinhas assustadas e desconhecidas, brigas, poucos sorrisos, tensão, professores estranhos. Mas agora cá estamos nós, um pouco menos de cinquenta carinhas, muitos sorrisos, professores não tão estranhos assim, e o principal, estamos nos descobrindo juntos. Descobrindo que a vida sempre tem algo a ensinar não importa o quanto você saiba, não importa sua idade, você sempre irá se surpreender se estiver aberto a novas experiências. Estaremos juntos quatro anos de nossas vidas. Vivenciaremos transformações internas, externas, intensas. Veremos alguns abandonar a caminhada, outros desbravando novos caminhos, mas uma coisa é certa, o ano de 2010 ficará para sempre marcado em nossas vidas, para alguns o começo e para outros, incluo-me também, o (re) começo.

Valéria Lourenço.
29.10.2010

sábado, 30 de outubro de 2010

"Tropa de Elite 2"

Assistindo a brilhante sequência do filme "Tropa de Elite", tenho a certeza ainda maior de que Capitão Nascimento, agora Coronel Nascimento, permeia o imaginário de cada cidadão de bem nesse nosso país. Ele é a síntese do herói que precisávamos encontrar na história tão triste do nosso Brasil. Enquanto em "Tropa de Elite" Capitão Nascimento luta contra os bandidos, e traz de volta a admiração pela polícia de elite carioca , agora Coronel Nascimento luta contra um inimigo muito maior.
Nos causa profunda tristeza em relação ao futuro de nossos entes queridos frente a toda essa sujeira em que estamos mergulhados. Não se trata de um maniqueísmo apenas entre as grandes esferas do poder. Qualquer cidadão de bem que se propõe a fazer algo para mudar essa situação, seja um professor, um médico ou qualquer outro profissional, se depara com o Sistema.
Ótimo filme, nos faz pensar sobre nós mesmos enquanto cidadãos e construtores de um país melhor para as futuras gerações.

"Passamos por um período em que nossos heróis acabam sempre mortos(...)
para um outro tempo em que os heróis nem sequer nascem.(...)
O que queremos e sonhamos
é uma pátria e um continente que já não precisem de heróis."
Mia Couto, Pensatempos apud DUTRA, Robson. Pepetela e a elipse do herói. Rio de Janeiro: UEA, 2009.

Editora Flâneur

Achei muito interessante descobrir que uma editora carioca acaba de estrear esse mês no mercado.
Mas o mais interessante para mim foi o nome da editora, ela se chama FLÂNEUR.
Uma grande coincidência, já que estou descobrindo este personagem pelo olhar de Baudelaire e Benjamin.
E ainda este ano a editora lança com a organização de Victoria Saramago, "Escritores escritos", onde alguns autores, entre eles Edgar Allan Poe, tornam-se personagens de escritores brasileiros.

Fonte: Jornal O Globo, caderno Prosa &Verso, 16.10.2010

domingo, 24 de outubro de 2010

Foram as dores que o mataram

Não importa o dia. Nem importa mesmo o ano em que se conheceram. Aconteceu. E houve um momento em que se amaram. Talvez tenha havido muitos momentos em que se amaram.
Depois a rotina de vidas que se afastaram e, incompreensilvemente, continuam juntas. E, dramaticamente caminham juntas, num desafio permanente à vida, à morte, ao direito de viver.
Não matei o meu marido.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Foram as dores do meu corpo que o condenaram. Foram o sangue pisado, o ventre moído, as feridas em pus.
Foram as pancadas de ontem, as de hoje e, sobretudo, as pancadas de amanhã que o mataram.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Foi o meu corpo recusado e dolorido após o uso e os abusos. Foram a tristeza, o desespero e a dor o amor que não tinha troco.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Às vezes ficava à janela, meio escondida, vendo-o partir para o trabalho com a roupa que eu lavara e engomara.
Gostava do seu modo de andar, do jeito como inclinava a cabeça. Via-o partir e ali ficava horas e dias à espera que voltasse e me trouxesse um riso e a esperança de que as coisas iriam mudar. Nesse dia não lembraria mais os tempos duros, os paus de pedra que me roíam e me desgastavam as entranhas. Mas para mim, não voltava nunca. Apenas para pedaços do meu corpo que esquecia logo.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Ele matou-se. Criou um espaço onde coabitavam a violência, a destruição, a miséria, o animalesco. E nós.
Deu-me as armas e fez-me assassina.
...depois ficou tudo escuro.
E o corpo a doer, a doer, a...
Um soluço frágil absorve a última palavra.

In: SALÚSTIO, Dina. Mornas eram as noites. Instituto Camões, Colecção Lusófona. 1999.


# 3

(RE)começo
Medo
(RE)vejo a estrada
Novas lembranças
Antigas esperanças
Animal Físico-Químico
Inconstante
Hoje condensação
Amanhã
VAPOR
              (iz)
                   AÇÃO.

Valéria Lourenço.
24.10.2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Amigas

Ah os amigos...
Você considera um privilégio tê-los ou escolhê-los?
Pois você se enganou.
Eles nos escolhem, e essa é a melhor parte, geralmente um motivo faz com que uma pessoa se aproxime de você, uma escola, um ponto de ônibus, um ônibus, uma locadora, uma universidade, uma casa perto da sua, mas são vários os que fazem com que essa admiração seja eterna.
Eu por exemplo tenho amigas de vários tipos, amigas de infância, essas me lêem sem eu escrever, e amigas que estão em construção. Mas sabe que às vezes essas categorias se confundem?!
Tenho uma amiga que faltam palavras para que ela se expresse, uma que fala com as mãos e uma que não fala, mas eu já posso lê-la. Tem uma que está sempre com os olhos úmidos, uma que nunca vi chorar, uma que já choramos juntas e uma que só me faz sorrir. Tem uma que acabou de entrar na maioridade e é mais madura que eu, uma que já tem 80 anos e é uma eterna criança, uma que está (re) começando a viver, uma que acabou de voltar para a escola, uma que já é professora de Literatura e não sabe e uma que o inimigo treme cada vez que ela se levanta da cama. Ah!  Eu não poderia jamais descrever as características de cada uma delas, elas são camaleoas, mas uma coisa todas elas têm em comum, são mulheres que me inspiram sempre, que me mostram que a vida é muito mais, e cada vez que penso em desistir lembro-me de cada uma delas, e de que o meu mundo não seria perfeito sem essas minhas amigas.  E o mais gostoso é que ainda tenho amigas que descobrirei e encontrarei ao longo da vida.
Obrigada Meninas super-poderosas.

Valéria Lourenço.
20.10.2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tempo

Apaga
Cura
Renova
Molda
Transforma
Lapida
Dilacera
Acalma

Valéria Lourenço.
11.03.2010

Poema ainda sem nome

Essa sede e angústia,
Inquietam dia após dia
A imaginação a flutuar
A mente em profundo vagar

Não sou daqui, não me pertenço
Mas quando menos espero
Envias-me um simples gesto
Volto à vida e a viver

E sei que aqui estou agora
Mas onde o tempo me levará
Nunca saberei dizer.

Valéria Lourenço.
11.03.2010.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto - Manuel Rui.

Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, Brasil, 23/05/1985.*


Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.

Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto não na intenção de o liquidar mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal assim identificando-me sempre eu, até posso ajudar-te à busca de uma identidade em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.

Mas para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me. Assim na minha oratura para além das estórias antigas na memória do tempo eu vou passar a incluir-te. Vou inventar novas estórias. Por exemplo o espantalho silencioso que coloco na lavra para os pássaros não me comerem a massambala passa a ser o outro que não fazia parte do texto. Também vou substituir a surucucu cobra maldita. Surucucu passa a ser o outro. E a cobra no meu texto inventado agora passa a ser bela e pacífica se morder o outro com o seu veneno mortal.

E agora o meu texto se ele trouxe a escrita? O meu texto tem que se manter assim oraturizado e oraturizante. Se eu perco a cosmicidade do rito perco a luta. Ah! Não tinha reparado. Afinal isto é uma luta. E eu não posso retirar do meu texto a arma principal . A identidade. Se o fizer deixo de ser eu e fico outro, aliás como o outro quer. Então vou preservar o meu texto, engrossá-lo mais ainda de cantos guerreiros. Mas a escrita? A escrita. Finalmente apodero-me dela. E agora? Vou passar o meu texto oral para a escrita? Não. É que a partir do movimento em que eu o transferir para o espaço da folha branca, ele quase morre. Não tem árvores. Não tem ritual. Não tem as crianças sentadas segundo o quadro comunitário estabelecido. Não tem som. Não tem dança. Não tem braços. Não tem olhos. Não tem bocas. O texto são bocas negras na escrita quase redundam num mutismo sobre a folha branca. O texto oral tem vezes que só pode ser falado por alguns de nós. E há palavras que só alguns de nós podem ouvir. No texto escrito posso liquidar este código aglutinador. Outra arma secreta para combater o outro e impedir que ele me descodifique para depois me destruir.

Como escrever a história, o poema, o provérbio sobre a folha branca? Saltando pura e simplesmente da fala para a escrita e submetendo-me ao rigor do código que a escrita já comporta? Isso não. No texto oral já disse: não toco e não o deixo minar pela escrita, arma que eu conquistei ao outro. Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto. Invento outro texto. Interfiro, desescrevo para que conquiste a partir do instrumento de escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma temos de ser nós. ‘Nós mesmos’. Assim reforço a identidade com a literatura.

Só que agora porque o meu espaço e tempo foi agredido, para defender por vezes dessituo do espaço e tempo o tempo mais total. O mundo não sou eu só. O mundo somos nós e os outros. E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste então o mundo universal.

Escrever então é viver.

Escrever assim é lutar.

Literatura e identidade. Princípio e fim. Transformador. Dinâmico. Nunca estático para que além da defesa de mim me reconheça sempre que sou eu a partir de nós também para a desalienação do outro até que um dia e virá “os portos do mundo sejam portos de todo o mundo”.

Até lá não se espantem. É quase natural que eu escreva também ódio por amor ao amor.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Boas notícias para (nós) estudantes de Letras

Ao ler o Jornal O GLOBO de sábado, no caderno PROSA & VERSO, deparei-me com uma notícia  que causou-me tristeza e alegria. A reportagem discorre sobre alguns arquivos particulares de escritores, tradutores e críticos, já falecidos, brasileiros e que viveram no Brasil, no caso do húngaro Paulo Rónai. Esses arquivos guardam preciosidades como cartas de Alphonsus de Guimaraens Filho a Carlos Drummond de Andrade, traduções de Balzac, citações de Aristóteles, 173 cadernos com manuscritos e até um capítulo do livro "Formação da Literatura Brasileira" (1959), essa, grande obra de Antonio Candido.
Alegrou-me o fato de saber que os estudantes de Letras tem um vasto campo de trabalho, haja vista que os responsáveis por esses arquivos, em grande parte a família, tem grande interesse de vê-los como objeto de estudo de pesquisadores e fazem o que podem para manter centenas de cartas, manuscritos e livros à salvo.
Mas a notícia não soa tão animadora quando descobrimos que grandes centros de pesquisa, neste caso a Biblioteca Nacional e a Casa de Rui Barbosa, não podem receber todo esse material, pois não tem funcionários e estagiários suficientes para realizar esse trabalho.
Um desses arquivos, no caso de Paulo Rónai, já recebeu uma proposta da Universidade de Princeton - EUA, mas sua viúva, Nora Rónai,  achou imortante manter a obra no Brasil.
Temos nesse aquivos uma grande fonte de estudo não somente para a área de Letras, mas também de história e cultura em geral.
Espero que consigamos dar à esses aqruivos o valor que eles merecem, e que não seja preciso que outro  Theodor Koch-Grunberg, venha escrever nossa própria história para trazer-nos fontes de pesquisa para "nosso" Macunaíma.

domingo, 17 de outubro de 2010

Meu primeiro post no meu primeiro blog

Estou muito feliz em criar meu primeiro blog. Sempre tive grande desejo de passar para o papel os meus pensamentos, mas os medos acabavam por tolhir-me. Quero compartilhar com vocês que aqui se encontrarem, um pouquinho do que penso, minhas opiniões e dicas sobre eventos, livros e assuntos interessantes. Espero que esse blog seja um espaço de interação, espero crescer com cada crítica e  melhorar sempre. Sejam bem vindos. "Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca." (Darcy Ribeiro)