quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Borboleta



 

Costumava acordar cedo: sempre às 18 horas, e evitava abrir a janela para olhar a tarde-noite. Pairava o medo de sentir-se tentada a voar como imaginava ser capaz na fase da vida em que aprendera a escrever uma palavra que até então ela nunca havia pronunciado: MÃE. Molhava o algodão naquele líquido de cheiro forte e esfregava nas unhas tirando a cor de um esmalte que não aprendera a usar. Com o corpo descortinado de fios a circundar os poros, tentava se despir da pele que tão bem disfarçava sua tristeza. Retirava todos os pelos do corpo e ansiava que cada ida àquele encontro a fizesse se esquecer de si.

Ao longo da vida, nas vezes que tentara se amarrar a alguém, definhava e seu pé logo se via livre das correntes que a prendiam. O abrir-fechar-abrir de asas sempre a encantava e a vontade de se vestir de personagens diversas talvez tivesse vindo depois de adulta, quando percebeu que ser uma era pouca[1].

Desceu as escadas, dessa vez, com a firmeza de uma veterana e ficou à espera do próximo cliente.



[1] gostaria de manter essa grafia: pouca.

Um comentário:

SIMONE JANUARIO disse...

Ah, Val... você me proporciona viagens inesqucíveis... sua fã!!!!