sexta-feira, 28 de julho de 2023

Do amor e seus riscos: leitura de "Mal dito coração", de Bruna Sonast

 



Quantas foram as vezes que tecemos conexões entre o amor e o coração? Essa ideia de que o ser amado e o amor estão abrigados nesse órgão guardado sob nosso peito é tão antiga quanto nossa existência. É ao coração que nos referimos quando estamos felizes por sermos amadas, mas é também ele que citamos quando as coisas não vão bem. Ah, esse maldito coração! É a este coração, tantas vezes incompreendido, que o livro Mal dito coração, de Bruna Sonast vai fazer referência.

Com texto de apresentação de Laís Eutália, poeta cearense que já nos alerta antes de iniciarmos as leituras dos poemas de Bruna que “amar é correr o risco”, Mal dito coração nos guia por uma espécie de trilha em que acompanhamos o nascimento da paixão, o desejo que cresce, o amor, e, depois, sua transformação em abandono, em separação, em término. Mas não se iluda, leitora, todo final pode ser um recomeço. E, assim, acontece no livro, tudo recomeça.

Bruna Sonast é natural do Ceará, produtora cultural com graduação em Letras e mestrado em Linguística Aplicada, ambos pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Além disso, realiza edição e revisão de livros literários e integra a baRRósas, uma coletiva feita por e para mulheres e artistas independentes, que realiza saraus e eventos literários em diversas áreas de Fortaleza, fora dos bairros considerados centrais. Publicou Vestígios (2020), por via independente, com nova impressão em 2021, organizou e participou com poemas em baRRósas: memória e poesia, publicado em 2021 pela editora Mirada. Também organizou Escritas do fim do mundo (2022), de forma independente.

O livro de Bruna Sonast nos convida a reflexões diversas desde o título, pass(e)ando pelo seu interior e nos possibilita que sejamos nós também construtoras desse fazer poético junto com ela. Ao marcar a palavra mal dito no título de forma separada  a poeta nos provoca a pensar nas possibilidades de leitura desta maldição que tanto relacionamos ao coração, logo, por vezes, ao amor. E há palavras mal ditas que proferimos no momento de dor por uma separação, uma perda amorosa, uma desilusão. Mas e quando amamos e estamos sendo amadas, será que sabemos falar bem deste coração, ou as palavras ainda não são bem ditas?

Como, por vezes, o amor está relacionado à paixão, é o poema “passional” que traremos para começar a ilustrar nossa conversa:

 

desejar

como quem se rende

e explode o país

(Sonast, 2022, p. 14).

 

Em poucas linhas, Bruna resume o que acontece conosco ao nos apaixonarmos: inicialmente, uma redenção, uma entrega, e, em seguida, a paixão é representada em toda intensidade na escolha da palavra “explode”. Ou seja, se antes há uma fraqueza deste corpo frente a tudo que chega de novo, depois, fortalecido, tudo é tão avassalador a ponto de nos dar coragem de explodir algo e, neste poema, um país. Aqui, podemos pensar em um país como uma metáfora para a ideia de nação. Afinal, é o país e tudo que está guardado sob esse manto da homogeneidade que, por vezes, nos violenta: o machismo, o patriarcado, o preconceito, uma única identidade. Assim, explodir um país soa como destruir todas as nossas certezas para começar algo novo.

Com ilustrações de Jéssica Lourença, mais uma artista cearense, Mal dito coração nos convida a preencher espaços em brancos deixados ali propositalmente pela autora. Como quem sabe que poesia é também silêncio, Bruna Sonast deixou páginas vazias ao longo do seu livro com convites para que a gente escreva ali. Desse modo, podemos nós, as leitoras, escrever nossos próprios poemas ou pensamentos que nos vêm ao longo da leitura do livro.

Ainda sob o efeito da paixão, o poema “antropofágica” sintetiza o desejo de ter o ser amado:

 

teu gosto

des co brin do

cada canto

da minha boca

(Sonast, 2022, p. 34)

 

Interessante aqui a inversão que é colocada em poucos versos. Não é mais a boca a descobrir gostos, mas sim o contrário, o gosto dessa outra pessoa que vem inaugurar os lábios do eu-lírico.

Em seguida, o amor se instala bem devagarinho e faz morada, mas quem está amando está sempre à espreita:

 

a risco

o bicho feio

que é o amor

cravou os dentes no meu estômago

(Sonast, 2022, p. 54)

 

O título do poema, “a risco” pode ser lido como arisco, ou seja, há desconfiança em relação à alguma situação, mas também pode ser interpretado como o risco diante do que se instalou dentro de mim. E, nesse caso, para além do coração, tenho agora um incômodo no estômago, outro órgão do corpo frequentemente citado quando falamos de nossas emoções. Assim, já reféns do amor, o risco da perda, de quebrar a cara, de nos decepcionarmos, pode nos deixar ariscas e inclusive chamar o amor como também chama a poeta “de bicho feio”. Ah, o amor sendo mal dito mais uma vez.

E depois de tudo isso, para onde vamos agora? Para a desilusão do amor. Para o que fica depois de um fim.

 

do que resta

 

o amor acabou

ficou só a vontade

estraçalhando por dentro

o osso

o oco

 

de tudo teu

que partiu

e permanece

 

minha obsessão

(Sonast, 2022, p. 66)

 

A sensação de perda, que faz com que o amor seja mal dito, é que está acima destacada. Após tantos momentos bons, do frio e das borboletas no estômago, do coração tão vermelho de amor, chega a desilusão. O vazio. No entanto, o poema afirma que outro sentimento “permanece”, a obsessão pelo que se amou. O outro se foi, partiu, mas esse desejo de reviver tudo fica, junto com a vontade de ter o ser amado.

No entanto, o sofrimento por amor não desfaz na poeta a vontade de amar de novo. Ao contrário, há que se continuar a tentar mais uma, mais uma, mais uma vez.

seguir o curso incerto

de desejar

tudo

outra vez

(SONAST, 2022, p.88).

 

O poema sem título retoma o desejo dos poemas iniciais do livro de Bruna Sonast e reafirma que a busca contínua por amor nos faz sermos ousadas e destemidas, fazer tudo “outra vez”.

Mal dito coração é um livro que poderia ser lido como um romance em prosa, dividido em quatro atos: o começo da paixão, o amor instalado, a decepção amorosa e, por fim, o recomeço. No entanto, para além de um ser amado, Bruna Sonast nos provoca a pensar em tudo que guardamos sob o escudo do coração para além do amor romântico entre um homem e uma mulher. Assim, a leitura dos poemas nos faz pensar em sonhos, em projetos que desejamos, nos empenhamos, conseguimos e, por vezes, nos decepcionamos; nos faz pensar no trabalho que tanto queríamos e não é exatamente como imaginávamos; nos lembra uma amizade desfeita; um curso, uma viagem ou algo em que investi tanto tempo e energia e, no fim, não foi como eu esperava, e meu coração ficou igualmente partido. Ou seja, no livro há muito sobre o amor entre duas pessoas, mas há também várias outras camadas de amor e de desejo que nos fazem, por vezes, mal dizer este coração bobo que, teimoso, recomeça sempre que pode.

SONAST, Bruna. Mal dito coração. Recife: Selo Mirada, 2022. 104 páginas. Revisão de Gílian Brito; coordenação editorial de Taciana Oliveira; diagramação de Rebeka Samyra. 

 



Reconstruindo meu blog

Oi, gente! 

Caramba, tanto tempo se passou e cá estou eu, de novo, reiniciando a escrita de um blog(ue). Eu pari este blog em 2010, assim que ingressei na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu e via aqui neste espaço uma oportunidade de dar espaço a minha voz. 

Bem, de lá pra cá, tanta coisa aconteceu. Fiz meu mestrado na Universidade Estadual do Maranhão, me tornei professora no IFCE campus Crateús e, desde 2021, sou doutoranda em Literatura Comparada na Universidade Federal do Ceará. Publiquei mais alguns livros, escrevi mais um bocado de coisa que espero compartilhar com vocês por aqui, viajei bastante também, e isso se tornou matéria para a literatura que eu faço. É isso, este posta é só mais um convite para que a gente se encontre por aqui de vez em quando.

Um abraço.

Valéria Lourenço.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

papel-seda


há algum tempo, havia decidido colocar minhas memórias sobre a gente, todas, dentro de um papel-seda. depois de bem dobradinho em alguns pedaços, como uma espécie de origami, guardei-as naquele espaço todo arrumadinho que sempre trago aqui dentro.  guardava a chave no bolso e às vezes preparava um ritual. buscava a chave, abria a porta e fazia uma faxina em uma parte da casa. daí, arrastava a cama e varria aquela poeira que ficava cá embaixo, acumulada, enrolada naquele chinelo velho que eu sempre pensava estar perdido.

a outra parte não precisava de arrumação, parecia uma sala de visitas, sempre a sala de visitas. impecável, para que as aparências enganassem mais alto. mas, só quem conhece esse lar muito bem, sabe que sempre tem um cantinho ao lado do sofá, onde caem coisas que – ou por preguiça, ou por medo de re-encontrá-las  – decido deixar ali, estagnadas.

entretanto, minhas lembranças sobre você, eu deixava naquele lugar de que mais gosto: sobre a prateleira de livros. quando sentia falta da gente, desdobrava o papelzinho e já podia até sentir o cheiro que elas me traziam. depois, conseguia ver cada fato de forma separada. o dia em que nos re-conhecemos, as primeiras palavras, o início de nossa amizade, o crescimento do meu carinho e admiração por você, até que tudo se transformasse em amor.

de repente...

foi num dia de céu azularado, entrei em casa e vi que tudo estava úmido. as coisas fora do lugar, como se uma enchente tivesse passado por ali e decidido ficar. os móveis já todos impregnados pelo cheiro-gosto da água salgada que escorria de dentro dos meus olhos, estavam flutuando sobre aquele rio inteiro que se formava.

corri e depois de um grito afogado, fui em busca do pedaço de papel-seda.

revira e remexe. comecei a lembrar do dia em que escolhi justo aquele papel para embalar nossas memórias. me remetia a uma ideia de infância. ao cuidado com que eram preparadas as pipas e paradoxalmente, ao quanto elas eram livres e ao mesmo tempo agressivas para enfrentar outras pipas que vinham em sua direção. escolhi o papel-seda.

ao correr os olhos ao redor, percebi que o papelzinho havia se rasgado. pedaços boiavam sobre as águas. não conseguia encontrar nenhuma das caixinhas que eu havia separado para guardar cada uma das minhas lembranças: a dor do parto; a alegria de juntar as primeiras letras; a tristeza pela morte do meu pai; a imagem da primeira filha; a deliciosa sensação de andar de pés descalços; o som da sua voz ...

com um fio de esperança, espremi cada coisinha que encontrava e corria pra estender sob o sol, ainda fraquinho, mas que começava a aparecer. em vão. tudo encharcado, aguando aqui dentro. após respirar fundo, e com as pernas ainda bambas, tentando seguir em frente, como num relance, foi então que percebi, que desde o dia em que te encontrei, minha casa está inundada de ti.

valéria lourenço. 15/09/2013 às 13h00.

Borboleta



 

Costumava acordar cedo: sempre às 18 horas, e evitava abrir a janela para olhar a tarde-noite. Pairava o medo de sentir-se tentada a voar como imaginava ser capaz na fase da vida em que aprendera a escrever uma palavra que até então ela nunca havia pronunciado: MÃE. Molhava o algodão naquele líquido de cheiro forte e esfregava nas unhas tirando a cor de um esmalte que não aprendera a usar. Com o corpo descortinado de fios a circundar os poros, tentava se despir da pele que tão bem disfarçava sua tristeza. Retirava todos os pelos do corpo e ansiava que cada ida àquele encontro a fizesse se esquecer de si.

Ao longo da vida, nas vezes que tentara se amarrar a alguém, definhava e seu pé logo se via livre das correntes que a prendiam. O abrir-fechar-abrir de asas sempre a encantava e a vontade de se vestir de personagens diversas talvez tivesse vindo depois de adulta, quando percebeu que ser uma era pouca[1].

Desceu as escadas, dessa vez, com a firmeza de uma veterana e ficou à espera do próximo cliente.



[1] gostaria de manter essa grafia: pouca.

(re)começando...

quatro anos se passaram desde que inicie a aventura de escrever um blog na internet. a ansiedade causada pelos momentos de amor com a universidade fez com que eu quisesse escrever e com-partilhar meus sentimentos com o mundo. com o mundo!? sei. não fui nem um pouco humilde. mas era isso que eu pensava. cursar letras foi libertador em alguns momentos, mas, em outros, me travou. agora, além de escrever, também faço o papel de crítica literária de mim mesma e só eu sei o quanto posso ser cruel nesse lugar. entretanto, apesar de todos os medos e travas, dois anos se passaram, terminei a graduação e lembrei-me do meu blogue. nossa, como ele está abandonado. o último post foi em novembro de 2012, já estamos em janeiro de 2015. talvez seja esse o momento de recomeçar. início de ano, esperanças renovadas, ciclos que se fecham e outros que se iniciam. espero que você embarque comigo novamente nessa jornada rumo a algo que eu também não sei ao certo o que é, mas está logo aqui, já posso até imaginar.

domingo, 4 de novembro de 2012

mães da lapa




senti sua vozinha fina do outro lado da linha. ainda não sei, mas imaginei um menino de cinco aninhos.
a mãe, sentou-se ao meu lado, em frente aos arcos da lapa. salto quinze e saia dez cm. sotaque do meu país.
a curiosidade infantil versava sobre diversas coisas:
- sim, filho, o rio é lindo!
- mamãe está morrendo de saudade!
- onde moro, com algumas amigas, ainda não há espaço para você.
- sim. mamãe está juntando dinheiro para você vir visitá-la.
- soube que você está rebelde na escola. obedeça  a titia.
a lapa se abrilhantou:
- em dezembro você virá conhecer o mar.
tomara que o natal desse ano será diferente.


v.l.

as estações





entraram no metrô. cinelândia. havia lugares no vagão, não era horário de pico. contra-fluxo, em direção à ipanema. ela, semblante angustiado, parecia aflita para continuar o diálogo que tinha sido interrompido pela chegada do trem. glória. ele, muito calado. ao menos naquele momento. catete. ansiosa, procurando sentar-se  rapidamente, olhou à sua volta e iniciou a conversa. ele lhe dizia algo que causava uma sensação que eu não conseguia decifrar: medo, raiva, tristeza, alegria, aflição. largo do machado.

chegava o meu local de desembarque, mas eu queria ver o desenrolar daquela história. flamengo. de repente, vi que parecia que aquele relacionamento havia durado um longo tempo e chegava ao fim. fim de página, linhas finais de uma história. botafogo. ela levanta os olhos, enxuga as lágrimas, fecha-o, guarda-o na bolsa e desembarca apressada.

v.l.

19/10/2012 no metrô central-ipanema


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

‎"queria fazer o mais lindo poema
mas que ele não me rasgasse tanto por dentro
que minhas entranhas não sentissem incômodos a
cada nova (fa)(pa)lavra 
nascendo-sangrando dentro de mim

a matéria talvez tenha sido inútil nos últimos tempos
para que poesia e poetas?
(des)caminhos por onde jorrar um não-ser infinito

calo o falo
com uma voz feminegrocêntrica pulsante
urgente
em meio a uma multidão miniaturizada
deixo que somente minha voz seja ouvida,
na casa que habito

que as ondas sonoras cheguem até onde
a palavra escrita não pode chegar."

v.l.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Presente ou "Nega do cabelo duro"


Acontecia um planeta de colinas em meu mundo,
universo completo e complexo de rochas intransponíveis,
obviamente,
pior ainda, escalamitosamente medonhas,
no entanto minha identidade caminha!

Desesperavam-se alpinistas dos mais esbeltos, sorrateiros,
comuns, de casa, sem casa e ainda mais de entendidos nas cordas.
Seguia-os afoita,
no auge de suas escapatórias medíocres,
na incompreensão das impossibilidades,
identidade ressequia!

Incontáveis açoites de mosquetões, técnicas,
superficiais ou desvanecidamente fundamentais.
Batia minha couraça contra as rochas,
desafogo impróbito em salvar os auges,
um céu somente negro e profundo de rocha,
arenoso, improvável lar de identificação.

Arrebento!

Descalço as sapatilhas calmamente,
tiro toda parafernalha de segurança,
tiro o agasalho, arranco fora a camisa de manga comprida,
finalmente me alivio da pressão das segundas peles,
calças térmicas e lycra para conter o calor,
Tiro também os sutiãs com proteção
e carrego finalmente meus seios fora, ao ar do meu mundo de pedra.
Dou a luz fúnebre meu sexo, livre da maldita calcinha reforçada.
Exponho o meu sexo!

Subo as montanhas como a colina de meu povo fugido,
Os olhares alpinísticos diferem, divergem e se perdem.
Passo caminhar passos largos a feroz liberdade do meu ser.
Ando, caminho e rebolo frenéticamente montanha acima,
parece meu grito de assombrar a natureza vindo a tona,
na velocidade dos meus passos o universo se transforma,
minha mudança de domicílio social começa hoje!
e a montanha termina,
é... existi um fim,
no cocuruto mais alucinante,
nenhum alpinista seria capaz de alcançar,
perdidos em tantas especulações medíocres,
consigo observar além das rochas.
Aqui está a resposta de tudo, o fim das perguntas,
sim!!!
Meu auge é Black Power!


Texto gentilmente enviado por um leitor do blogue, inspirado no "Manifesto do meu cabelo Black Power".

domingo, 5 de agosto de 2012

EU

nao quero mais falar de nada alem de tudo isso que esta dentro de mim
e tudo vem tao rapido
a vida nao me da tempo para respirar fazer pausas e pontuaçoes necessarias
compreenda quando me vir desse jeito
e o jeito que nasci
com erros
cheia de desvios de norma
sem hierarquias

mas com uma imensa ferida rasgando o peito
queimando a agua que insiste em molhar meu pes
queria ter algumas respostas pulsantes
urgentes morro sem encontra las nesse turbilhao em que se transformaram meus sonhos

lindos sonhos
nao    
sonhos loucos
impregnados de controversias exacerbadas
talvez nem tao lindos para serem impressos e colocados na folha de um livro
ou uma página virtual

mas incensos suaves para impelir meus passos
a caminhar adiante cada dia mais

queria ter escolhido o dia e a hora de meu nascimento
outro signo outra perspectiva
mas sou do ar
nao fixe meus pes no chao

Valéria Lourenço. (05/08/2012) às 22h12

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Manifesto do meu cabelo Black Power

Nossa! Parece que foi ontem. Mas já faz quase um ano que resolvi usar o cabelo de forma natural. E isso tem me proporcionado momentos bons e ruins. Afinal, essas são “as dores e delícias de ser o que é”.
*
Desde criança fui obrigada (sim isso mesmo, não me foi dado uma escolha) a conviver com conselhos de pessoas diversas, amigas, próximas ou completamente desconhecidas, sobre os melhores tratamentos para o meu tipo cabelo. E eu, não conseguia ver maldades nos discursos, afinal, além de evitar constantes gozações no colégio, o cabelo mais “maleável” era mais fácil de ser “arrumado” e não requereria de mim tanto tempo na frente do espelho na tentativa de “domar” toda aquela “rebeldia”.
*
E assim fui eu. Crescendo. Gastando dinheiro, tempo e paciência na tentativa de achar algum produto milagroso que se adaptasse ao meu estilo ou mesmo que me fizesse sentir mais bela. Pente quente (sim isso existiu), henê, alisante, tinturas, relaxamento caseiro, relaxamento em salões especializados, escova normal (não a “regressiva”, e sem prancha, afinal, na minha época não tinha isso). Mas enfim, foram muitas as tentativas de chegar a um resultado satisfatório.
*
Entretanto, com o passar dos dias e meses, minha frustração aumentava. Eu não conseguia o efeito do cabelo liso, e quando chegava perto desse resultado via que meu rosto (redondo), não combinava com aquele tipo de cabelo. E quando conseguia relaxar o cabelo, em poucos dias ou meses minhas raízes teimavam em aparecer e entregar aos quatros ventos que toda aquela alquimia não estava funcionando ou que aquela não era eu.
*
Enfim, entro na universidade... momento de grandes descobertas ou redescobertas, prefiro assim. Ao estudar um pouco mais sobre minhas rotas, raízes e minha ancestralidade africana descubro o quanto minha pele e minha identidade foram uma das vias pela qual o colonizador “tentava” me diminuir e me transformar em objeto e assim me dominar com mais facilidade. Discurso na primeira pessoa, pois creio que era eu em algum momento.
*
Depois, com o passar dos anos, vejo que meu estilo de cabelo “Black Power” marcou uma forma de resistência em algum lugar desse louco mundo. Que o diga Assata Shakur. E cá estou eu, hoje, no século XXI, num mundo que se diz tão moderno, onde “pensamos” ser tão livres e resolvo assumir minhas raízes, todas elas.
*
Com um estilo de cabelo Black Power por diversas vezes sou olhada na rua, algumas vezes de forma simpática e alvo de sorrisos de admiração, mas também de olhares de reprovação como se o meu cabelo medisse o tamanho ou a textura da minha personalidade.
Sigo em frente!
Meu esposo e meus filhos acham lindo, me amam do jeito que sou.  Amigas na universidade vêm por vezes me dizer que decidiram assumir os cachos por conta do meu exemplo. Acho isso lindo!
*
Até que certo dia uma senhora me parou na rua e me perguntou como eu fazia pra manter o meu cabelo desse jeito. E respondi: em primeiro lugar a senhora precisa ter uma boa dose de coragem para aturar olhares, risos e piadinhas maldosas. E depois, é mais simples do que todos os tipos de cabelo que já tive. Basta passar a mão para acordar as histórias que estão por baixo de cada fio e com a ajuda de um pente, definir quais os sorrisos e olhares que quero para o meu dia. E além disso, a sensação proporcionada ao acordar e me olhar no espelho e ver que meu cabelo quer subir cada dia mais, sem se importar com quem está parado olhando minha vida, meu cabelo e o tempo passar, é indescritível.
*
E quando me perguntam se vou deixar meu cabelo assim pra sempre. Respondo que pra sempre é muito tempo, mas é bom saber que posso ter meu cabelo natural, enrolado, escovado, vermelho, loiro, curto, longo, trançado, porque hoje me dou as opções que não me deram na infância. Talvez por conta do tom da minha pele, tenham guardado esse segredo: a mulher negra pode ter ou usar o cabelo que quiser. Não sabiam que a pele preta combina todas as cores em uma só.
E assim sigo com meu “pixaim elétrico” eletrizando as cabeças e os olhares que encontro em meu caminho, iluminando a trilha da minha vida.

Valéria Lourenço. 22/07/2012 às 19h 03

quarta-feira, 30 de maio de 2012

(Ab)alo

Cismo,
E a sismologia dentro de mim se instaura
Eruptantes ideias de vozes
Ancestrais
Recorrentes primaveras
Desnuda.
Alma apocalíptica
Embalo espinhos para engoli-los da melhor forma
Comprimidos
Comprimidos desejos
Buscam a efervescência
Velocidade descontrolada
Sem limites.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(Per)corro cada caminho, ermo,
na ânsia de pisar teus passos
o certo e o errado delimitam
os espaços, os corpos
Não posso sucumbir o desejo de consumir você,
me encontrar num labirinto,
me perder num caminho
Na loucura da paixão encontrar a paz
que me move
comove
Certo, errado,
corpos,
espaços unlimited.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Palavras-pássaro


E indo...

Leva nos lábios a esperança de almas

Palavras podem ser ditas em segredo

Ornadas te levam ao topo do céu

Vais...

Alimentando os famintos desce pelos templos

Enches as casas de luz

Faz crescer memórias,

Novos fios de infinito

Sejas...

Semente-alimento

Semente -esperança

ARQUITE(N)TANDO


não há como ser inteira

em algo que requer metade

feridas curam

remédios envenenando

a alma

utilizo palavras para

(re)construir castelos

mas um simples sopro

é capaz de derrubá-lo

construo

arquiteto sonhos

projeto

esquadrinho

preciso refazer a planta do meu coração.

29/04/2012


Vermelho

Periferindo
O escarlate do meu coração
A caverna a céu aberto
entremeada de nomes a demarcar territórios
pinturas modernas me corroem os sentidos
pequenos vermes
onde está meu urucum? Sangue-guerreiro
E a multidão a se banhar nas ondas da paz.

Abril/2012

sábado, 17 de março de 2012

Retornando ao blogue

A síndrome de Bartleby me acomete. Ora essa! O escritor que já não aguenta mais escrever. Isso existe?
Tenho a impressão de que todas as coisas já foram ditas e uma voz tão fina não consegue fazer eco frente ao barulho horrendo que jorra desse escuro abismo denominado mundo.

Serão necessários muito mais do que mil silêncios para calar essa ânsia que pulsa, essa vontade de explodir que se acalma quando se está num divã de 87 teclas ou de escrita grafite.

Ah! Ao menos lembra-se que toda a voz que ecoa é um somatório de vozes. E se o silêncio persistir, releia o que já escreveram e deixe pergaminhos para que futuros sons possam ser balbuciados.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pixain

Em pequena era indiferente ter a pele da cor que tivesse/Mas a crueldade anda arrodiando a gente/e no de repente o fato se torna incômodo/sabão, esponja e força nos braços tentam trazer outra tonalidade à superfície,/talvez quem saiba, emergir o vermelho-sangue do coração bate-batendo-assim-assim/mas uma passadela em frente ao espelho/e mostra-se o lindo retinto/luzindo/ preparo o caldeirão fervendo com o líquido que me espera/banho de betume, piche, picha, pixain...

Valéria Lourenço (01/12/2011)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Índio-afro-branco descendente

 No navio viemos,
kalunga a nos buscar,
para construírmos um país
onde não tinhamos lugar
Nossa escola foi o pelourinho, Quando aqui chegamos
A senzala nos aguardava, o engenho nos chamava,
A liberdade nos espreitava,
Para os quilombos fomos marchando
Sem posses, Sem laços, Sem família,
raça impura, sem religião
Esse foi o argumento do branco
quando nos trouxeram num porão
Nossa religião, às escondias sobreviveu
Golpes disfarçados, rodopios rasteiros
num passo ritmado da cadência da dança,
capoeira nasceu
Muxoxo, Samba, Acarajé
Palavras que permeiam o dia-a-dia brasileiro
Estamos na comida, no folclore,
Na dança, no terreiro

Não há medo do novo
Novos desafios se (re) erguerão,
Encontraremos novos lugares,
Mas há mais de 100 anos foi abolida a escravidão?!
Uma lei para ensinar nossa história
Não apagar nossa memória, assim colocaram
Espaço na universidade, reservas de “generosidade”
Mas nosso saber está difundido,  querer, só a dignidade
Desde o navio negreiro,
Muitos pretos novos ainda hão de morrer,
Antes nos portos, e senzalas, agora, nas favelas,
Em muitas ruas e becos,
Avenidas e vielas

Por que quem olha do centro
Me chama de periferia,
Mas periferia pode ser você,
Tudo depende do olhar de quem vê
Negra cor, Cabelo pixaim
Sorriso de alegria tão igual a mim
África- mãe, Zumbi meu pai
Criaram um filho que crescendo vai
Vemos a vitória de um povo
Povo que nasceu vencedor
Sangue indío-afro-branco descendente
cafuso, mulato, confuso, brava gente, brasileiro por amor.

Valéria Lourenço.

P.S.: Esta poesia recebeu uma Menção Honrosa (22/11/2011) entre 187 poesias inscritas no X Concurso de poesia da Prefeitura Municipal de Duque de Caxias.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Confidência - Mia Couto

"Confidência"


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça


Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno


Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci


Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos


No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nube blanca

Branca nuvem chegaste,
Olhos dourados cintilando alegria
Palavras em compasso
Pensamentos em harmonia.

Primaveras que chegam juntas
Andam na contramão
Histórias infinitas
Sonhos na mesma direção.

Branca nuvem, onde andaste?
Só agora a encontrei
Estarás sempre perto
Nossos passos (in)certos
Mas por ti esperarei.

Valéria Lourenço.
19/06/2011 às 16 h