nao quero mais falar de nada alem de tudo isso que esta dentro de mim
e tudo vem tao rapido
a vida nao me da tempo para respirar fazer pausas e pontuaçoes necessarias
compreenda quando me vir desse jeito
e o jeito que nasci
com erros
cheia de desvios de norma
sem hierarquias
mas com uma imensa ferida rasgando o peito
queimando a agua que insiste em molhar meu pes
queria ter algumas respostas pulsantes
urgentes morro sem encontra las nesse turbilhao em que se transformaram meus sonhos
lindos sonhos
nao
sonhos loucos
impregnados de controversias exacerbadas
talvez nem tao lindos para serem impressos e colocados na folha de um livro
ou uma página virtual
mas incensos suaves para impelir meus passos
a caminhar adiante cada dia mais
queria ter escolhido o dia e a hora de meu nascimento
outro signo outra perspectiva
mas sou do ar
nao fixe meus pes no chao
Valéria Lourenço. (05/08/2012) às 22h12
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domingo, 5 de agosto de 2012
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Manifesto do meu cabelo Black Power
Nossa! Parece que foi ontem. Mas já faz quase um ano que resolvi usar o cabelo de forma natural. E isso tem me proporcionado momentos bons e ruins. Afinal, essas são “as dores e delícias de ser o que é”.
*
Desde criança fui obrigada (sim isso mesmo, não me foi dado uma escolha) a conviver com conselhos de pessoas diversas, amigas, próximas ou completamente desconhecidas, sobre os melhores tratamentos para o meu tipo cabelo. E eu, não conseguia ver maldades nos discursos, afinal, além de evitar constantes gozações no colégio, o cabelo mais “maleável” era mais fácil de ser “arrumado” e não requereria de mim tanto tempo na frente do espelho na tentativa de “domar” toda aquela “rebeldia”.
*
E assim fui eu. Crescendo. Gastando dinheiro, tempo e paciência na tentativa de achar algum produto milagroso que se adaptasse ao meu estilo ou mesmo que me fizesse sentir mais bela. Pente quente (sim isso existiu), henê, alisante, tinturas, relaxamento caseiro, relaxamento em salões especializados, escova normal (não a “regressiva”, e sem prancha, afinal, na minha época não tinha isso). Mas enfim, foram muitas as tentativas de chegar a um resultado satisfatório.
*
Entretanto, com o passar dos dias e meses, minha frustração aumentava. Eu não conseguia o efeito do cabelo liso, e quando chegava perto desse resultado via que meu rosto (redondo), não combinava com aquele tipo de cabelo. E quando conseguia relaxar o cabelo, em poucos dias ou meses minhas raízes teimavam em aparecer e entregar aos quatros ventos que toda aquela alquimia não estava funcionando ou que aquela não era eu.
*
Enfim, entro na universidade... momento de grandes descobertas ou redescobertas, prefiro assim. Ao estudar um pouco mais sobre minhas rotas, raízes e minha ancestralidade africana descubro o quanto minha pele e minha identidade foram uma das vias pela qual o colonizador “tentava” me diminuir e me transformar em objeto e assim me dominar com mais facilidade. Discurso na primeira pessoa, pois creio que era eu em algum momento.
*
Depois, com o passar dos anos, vejo que meu estilo de cabelo “Black Power” marcou uma forma de resistência em algum lugar desse louco mundo. Que o diga Assata Shakur. E cá estou eu, hoje, no século XXI, num mundo que se diz tão moderno, onde “pensamos” ser tão livres e resolvo assumir minhas raízes, todas elas.
*
Com um estilo de cabelo Black Power por diversas vezes sou olhada na rua, algumas vezes de forma simpática e alvo de sorrisos de admiração, mas também de olhares de reprovação como se o meu cabelo medisse o tamanho ou a textura da minha personalidade.
Sigo em frente!
Meu esposo e meus filhos acham lindo, me amam do jeito que sou. Amigas na universidade vêm por vezes me dizer que decidiram assumir os cachos por conta do meu exemplo. Acho isso lindo!
*
Até que certo dia uma senhora me parou na rua e me perguntou como eu fazia pra manter o meu cabelo desse jeito. E respondi: em primeiro lugar a senhora precisa ter uma boa dose de coragem para aturar olhares, risos e piadinhas maldosas. E depois, é mais simples do que todos os tipos de cabelo que já tive. Basta passar a mão para acordar as histórias que estão por baixo de cada fio e com a ajuda de um pente, definir quais os sorrisos e olhares que quero para o meu dia. E além disso, a sensação proporcionada ao acordar e me olhar no espelho e ver que meu cabelo quer subir cada dia mais, sem se importar com quem está parado olhando minha vida, meu cabelo e o tempo passar, é indescritível.
*
E quando me perguntam se vou deixar meu cabelo assim pra sempre. Respondo que pra sempre é muito tempo, mas é bom saber que posso ter meu cabelo natural, enrolado, escovado, vermelho, loiro, curto, longo, trançado, porque hoje me dou as opções que não me deram na infância. Talvez por conta do tom da minha pele, tenham guardado esse segredo: a mulher negra pode ter ou usar o cabelo que quiser. Não sabiam que a pele preta combina todas as cores em uma só.
E assim sigo com meu “pixaim elétrico” eletrizando as cabeças e os olhares que encontro em meu caminho, iluminando a trilha da minha vida.
Valéria Lourenço. 22/07/2012 às 19h 03
*
Desde criança fui obrigada (sim isso mesmo, não me foi dado uma escolha) a conviver com conselhos de pessoas diversas, amigas, próximas ou completamente desconhecidas, sobre os melhores tratamentos para o meu tipo cabelo. E eu, não conseguia ver maldades nos discursos, afinal, além de evitar constantes gozações no colégio, o cabelo mais “maleável” era mais fácil de ser “arrumado” e não requereria de mim tanto tempo na frente do espelho na tentativa de “domar” toda aquela “rebeldia”.
*
E assim fui eu. Crescendo. Gastando dinheiro, tempo e paciência na tentativa de achar algum produto milagroso que se adaptasse ao meu estilo ou mesmo que me fizesse sentir mais bela. Pente quente (sim isso existiu), henê, alisante, tinturas, relaxamento caseiro, relaxamento em salões especializados, escova normal (não a “regressiva”, e sem prancha, afinal, na minha época não tinha isso). Mas enfim, foram muitas as tentativas de chegar a um resultado satisfatório.
*
Entretanto, com o passar dos dias e meses, minha frustração aumentava. Eu não conseguia o efeito do cabelo liso, e quando chegava perto desse resultado via que meu rosto (redondo), não combinava com aquele tipo de cabelo. E quando conseguia relaxar o cabelo, em poucos dias ou meses minhas raízes teimavam em aparecer e entregar aos quatros ventos que toda aquela alquimia não estava funcionando ou que aquela não era eu.
*
Enfim, entro na universidade... momento de grandes descobertas ou redescobertas, prefiro assim. Ao estudar um pouco mais sobre minhas rotas, raízes e minha ancestralidade africana descubro o quanto minha pele e minha identidade foram uma das vias pela qual o colonizador “tentava” me diminuir e me transformar em objeto e assim me dominar com mais facilidade. Discurso na primeira pessoa, pois creio que era eu em algum momento.
*
Depois, com o passar dos anos, vejo que meu estilo de cabelo “Black Power” marcou uma forma de resistência em algum lugar desse louco mundo. Que o diga Assata Shakur. E cá estou eu, hoje, no século XXI, num mundo que se diz tão moderno, onde “pensamos” ser tão livres e resolvo assumir minhas raízes, todas elas.
*
Com um estilo de cabelo Black Power por diversas vezes sou olhada na rua, algumas vezes de forma simpática e alvo de sorrisos de admiração, mas também de olhares de reprovação como se o meu cabelo medisse o tamanho ou a textura da minha personalidade.
Sigo em frente!
Meu esposo e meus filhos acham lindo, me amam do jeito que sou. Amigas na universidade vêm por vezes me dizer que decidiram assumir os cachos por conta do meu exemplo. Acho isso lindo!
*
Até que certo dia uma senhora me parou na rua e me perguntou como eu fazia pra manter o meu cabelo desse jeito. E respondi: em primeiro lugar a senhora precisa ter uma boa dose de coragem para aturar olhares, risos e piadinhas maldosas. E depois, é mais simples do que todos os tipos de cabelo que já tive. Basta passar a mão para acordar as histórias que estão por baixo de cada fio e com a ajuda de um pente, definir quais os sorrisos e olhares que quero para o meu dia. E além disso, a sensação proporcionada ao acordar e me olhar no espelho e ver que meu cabelo quer subir cada dia mais, sem se importar com quem está parado olhando minha vida, meu cabelo e o tempo passar, é indescritível.
*
E quando me perguntam se vou deixar meu cabelo assim pra sempre. Respondo que pra sempre é muito tempo, mas é bom saber que posso ter meu cabelo natural, enrolado, escovado, vermelho, loiro, curto, longo, trançado, porque hoje me dou as opções que não me deram na infância. Talvez por conta do tom da minha pele, tenham guardado esse segredo: a mulher negra pode ter ou usar o cabelo que quiser. Não sabiam que a pele preta combina todas as cores em uma só.
E assim sigo com meu “pixaim elétrico” eletrizando as cabeças e os olhares que encontro em meu caminho, iluminando a trilha da minha vida.
Valéria Lourenço. 22/07/2012 às 19h 03
quarta-feira, 30 de maio de 2012
(Ab)alo
Cismo,
E a sismologia dentro de mim se instaura
Eruptantes ideias de vozes
Ancestrais
Recorrentes primaveras
Desnuda.
Alma apocalíptica
Embalo espinhos para engoli-los da melhor forma
Comprimidos
Comprimidos desejos
Buscam a efervescência
Velocidade descontrolada
Sem limites.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(Per)corro cada caminho, ermo,
na ânsia de pisar teus passos
o certo e o errado delimitam
os espaços, os corpos
Não posso sucumbir o desejo de consumir você,
me encontrar num labirinto,
me perder num caminho
Na loucura da paixão encontrar a paz
que me move
comove
Certo, errado,
corpos,
espaços unlimited.
E a sismologia dentro de mim se instaura
Eruptantes ideias de vozes
Ancestrais
Recorrentes primaveras
Desnuda.
Alma apocalíptica
Embalo espinhos para engoli-los da melhor forma
Comprimidos
Comprimidos desejos
Buscam a efervescência
Velocidade descontrolada
Sem limites.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
(Per)corro cada caminho, ermo,
na ânsia de pisar teus passos
o certo e o errado delimitam
os espaços, os corpos
Não posso sucumbir o desejo de consumir você,
me encontrar num labirinto,
me perder num caminho
Na loucura da paixão encontrar a paz
que me move
comove
Certo, errado,
corpos,
espaços unlimited.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Pixain
Em pequena era indiferente ter a pele da cor que tivesse/Mas a crueldade anda arrodiando a gente/e no de repente o fato se torna incômodo/sabão, esponja e força nos braços tentam trazer outra tonalidade à superfície,/talvez quem saiba, emergir o vermelho-sangue do coração bate-batendo-assim-assim/mas uma passadela em frente ao espelho/e mostra-se o lindo retinto/luzindo/ preparo o caldeirão fervendo com o líquido que me espera/banho de betume, piche, picha, pixain...
Valéria Lourenço (01/12/2011)
Valéria Lourenço (01/12/2011)
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Índio-afro-branco descendente
kalunga a nos buscar,
para construírmos um país
onde não tinhamos lugar
Nossa escola foi o pelourinho, Quando aqui chegamos
A senzala nos aguardava, o engenho nos chamava,
A liberdade nos espreitava,
Para os quilombos fomos marchando
Sem posses, Sem laços, Sem família,
raça impura, sem religião
Esse foi o argumento do branco
quando nos trouxeram num porão
Nossa religião, às escondias sobreviveu
Golpes disfarçados, rodopios rasteiros
num passo ritmado da cadência da dança,
capoeira nasceu
Muxoxo, Samba, Acarajé
Palavras que permeiam o dia-a-dia brasileiro
Estamos na comida, no folclore,
Na dança, no terreiro
Não há medo do novo
Novos desafios se (re) erguerão,
Encontraremos novos lugares,
Mas há mais de 100 anos foi abolida a escravidão?!
Uma lei para ensinar nossa história
Não apagar nossa memória, assim colocaram
Espaço na universidade, reservas de “generosidade”
Mas nosso saber está difundido, querer, só a dignidade
Desde o navio negreiro,
Muitos pretos novos ainda hão de morrer,
Antes nos portos, e senzalas, agora, nas favelas,
Em muitas ruas e becos,
Avenidas e vielas
Por que quem olha do centro
Me chama de periferia,
Mas periferia pode ser você,
Tudo depende do olhar de quem vê
Negra cor, Cabelo pixaim
Sorriso de alegria tão igual a mim
África- mãe, Zumbi meu pai
Criaram um filho que crescendo vai
Vemos a vitória de um povo
Povo que nasceu vencedor
Sangue indío-afro-branco descendente
cafuso, mulato, confuso, brava gente, brasileiro por amor.
Valéria Lourenço.
P.S.: Esta poesia recebeu uma Menção Honrosa (22/11/2011) entre 187 poesias inscritas no X Concurso de poesia da Prefeitura Municipal de Duque de Caxias.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Nube blanca
Branca nuvem chegaste,
Olhos dourados cintilando alegria
Palavras em compasso
Pensamentos em harmonia.
Primaveras que chegam juntas
Andam na contramão
Histórias infinitas
Sonhos na mesma direção.
Branca nuvem, onde andaste?
Só agora a encontrei
Estarás sempre perto
Nossos passos (in)certos
Mas por ti esperarei.
Valéria Lourenço.
19/06/2011 às 16 h
Olhos dourados cintilando alegria
Palavras em compasso
Pensamentos em harmonia.
Primaveras que chegam juntas
Andam na contramão
Histórias infinitas
Sonhos na mesma direção.
Branca nuvem, onde andaste?
Só agora a encontrei
Estarás sempre perto
Nossos passos (in)certos
Mas por ti esperarei.
Valéria Lourenço.
19/06/2011 às 16 h
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
aMar o Mar
Como deve ser reunir todo o azul do mar em um único ser?
O frescor, a liberdade, a leveza
Ondas energizantes, que revigoram e balançam
O corpo trêmulo,
Palavras lavrando, umidificando a terra seca, desejosa de ser
Alimentada.
O mar se achega e de mansinho se apossa desse
Pedaço de deserto
Sendo capaz de fazer brotar da mais louca imaginação
A mais voraz admiração.
Valéria Lourenço 29/09/2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Independência - 07/09/2011
(In) dependência
de valores, de beijos, de abraços, de carinhos
a janela do mundo está aberta, a porta da casa
derrubada, construindo, metamorfoseando, abandono a fôrma,
a forma,
a métrica?
Meu pé tem vida própria.
Valéria Lourenço.
de valores, de beijos, de abraços, de carinhos
a janela do mundo está aberta, a porta da casa
derrubada, construindo, metamorfoseando, abandono a fôrma,
a forma,
a métrica?
Meu pé tem vida própria.
Valéria Lourenço.
domingo, 14 de agosto de 2011
Somália - África
Estados Unidos da América, supergrande prepotência
Crianças morrem de fome na África,
Europa, raça pura, velho mundo,
Morrem de fome na África,
Insurreição árabe, o mundo de cabeça para baixo,
Fome na África,
a África continua embaixo.
Mulheres pretas, secas, olhos magros, choro sem lágrimas
O filho suga o leite que já não alimenta, pois o alimento
que um dia tiveram, foi sugado por um povo superior
Por quê ajudar o que destruímos?
Crianças (...)
Crianças com bocas sedentas de algum líquido precioso
que jorre do chifre africano
Olhos nus repletos de esperança,
O líquido azul que salva o gado e cria a vida
Vai (...) espere meu doce infinito.
Não agora será tua aquela cova
De meus olhos jorram algum líquido inodoro e insípido,
repleto de vergonha.
A carne cortada pela vaidade, o meu futuro me aguarda brilhante (...)
Miserável. Ai de mim.
Seguiremos sempre aqui cantando com nossos egos,
seres supergrandes prepotentes
E tu?
Pra quando África?
Até quando África?
Crianças morrem de fome na África,
Europa, raça pura, velho mundo,
Morrem de fome na África,
Insurreição árabe, o mundo de cabeça para baixo,
Fome na África,
a África continua embaixo.
Mulheres pretas, secas, olhos magros, choro sem lágrimas
O filho suga o leite que já não alimenta, pois o alimento
que um dia tiveram, foi sugado por um povo superior
Por quê ajudar o que destruímos?
Crianças (...)
Crianças com bocas sedentas de algum líquido precioso
que jorre do chifre africano
Olhos nus repletos de esperança,
O líquido azul que salva o gado e cria a vida
Vai (...) espere meu doce infinito.
Não agora será tua aquela cova
De meus olhos jorram algum líquido inodoro e insípido,
repleto de vergonha.
A carne cortada pela vaidade, o meu futuro me aguarda brilhante (...)
Miserável. Ai de mim.
Seguiremos sempre aqui cantando com nossos egos,
seres supergrandes prepotentes
E tu?
Pra quando África?
Até quando África?
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Lembranças fugidias
Moisés sempre foi sonhador. Quando adulto tornou-se trabalhador, mas os sonhos... Ah, estes ele deixou cair pelo caminho.
Casado permaneceu com Maria, seu grande amor desde a tenra idade, por mais de 60 anos. Juntos construíram uma linda família, perdeu uma única batalha na vida: o filho para as drogas. Mas ainda assim, com uma vida humilde, seguiam cada qual sua função de cidadãos no mundo. Um casal amoroso com duas filhas e quatro netos.
Mas uma hora a mente cansa. E o primeiro sinal de cansaço muitas vezes não se dá no corpo, mas sim na alma, na memória. Conversar com o Sr. Moisés era sempre tão bom. Ele sempre a contar histórias sobre sua vida na roça, a construção de sua modesta casinha e a alegria de estar vivo mesmo quando muitos dos seus já se foram. As tristezas do mundo iam preenchendo aquela cabeça branca e aqueles olhos já exaustos de tanta miséria em sua volta. Um dia, não sabemos se por vontade própria ou pelo cansaço da mente, Moisés já não se lembra mais do caminho de sua casa. Este lar, que até então, com seus 83 anos, era um porto-seguro quando vinha das suas andanças - ele sempre foi dado a caminhadas – agora se transformara num lugar desconhecido. Passava em frente ao seu portão e já não entrava, pois não se sentia mais pertencente àquele lugar.
Os sonhos de ganhar o mundo voltaram, mas agora já era o corpo que estava cansado. Saía de ônibus pela manhã e não chegava. A família, que sempre fora muito conhecida da região, acabava recebendo-o em casa pelas mãos de alguma alma caridosa que reconhecia aquele velho negro de cabelos brancos de algum lugar de sua infância. As saídas foram ficando mais frequentes, mas as chegadas cada vez mais demoradas. Não havia tantas almas caridosas assim no mundo e o velho Moisés não era tão conhecido a ponto de rodar todo o Rio de Janeiro e ser reconhecido todo o tempo.
Para aquela que foi sua amada durante mais de sessenta anos, a decisão a ser tomada foi difícil mas necessária: privar da liberdade o homem com quem ela viveu por mais de meio século. A tarefa árdua coube a ela, a única de quem ele não esquecia o nome. E ali, trancado num quartinho nos fundos da casa, ele gemia. Gritava e implorava por socorro ao mesmo tempo em que dizia lindas palavras de amor para o amor de toda a sua vida.
Ali, longe do mundo e de suas andanças, o coração parecia parar, acalmar-se, e acalmava-se tanto, a ponto de ele recordar-se de coisas de sua infância. Chamava pela mãe, pelo pai, pelos irmãos que já não se encontravam neste plano terreno, mas era incapaz de reconhecer o rosto da filha que ia levar-lhe o calmante.
A família chorava. Lágrimas conjuntas de esposa, filhas e netos. A dor era insuportável para todos. Decidiram, devido ao grande amor que sentiam por ele, interná-lo numa casa que tivesse o tratamento adequado para lembranças fugidias.
O pobre Moisés, parecendo perceber o que estava por vir, decidiu acalmar-se neste dia. Jurou, ouvindo as conversas decisivas que vinham de dentro da casa, que não gritaria mais, porém os nomes ainda era incapaz de lembrar.
Pediu por socorro durante toda aquela noite. Pela manhã, finalmente a alma descansou.
Texto produzido para o curso de compreensão textual - CEEP/UFRRJ/IM
quinta-feira, 23 de junho de 2011
O homem e o outro
A história da humanidade é marcada pela suposta supremacia de uma “raça” em detrimento de outra. A dicotomia “inferioridade versus superioridade”, sempre foi um pressuposto para que o colonizador de ontem e o de hoje nadificasse o ser humano e tornasse este, produto de manipulação daquele. Nos dias atuais, o homem ainda coisifica o seu semelhante e tem a cada dia exterminado sua própria espécie.
Durante a evolução do homem, o outro sempre foi o ponto de partida para grandes catástrofes que tingem de vermelho a história do homem sobre a Terra. As grandes guerras mundiais e o nazismo de Hitler, a escravidão dos africanos, o extermínio dos indígenas, o apartheid sul-africano das décadas de 70 e 80 e o apartheid mundial da atualidade. Todos esses eventos foram, e são, frutos de uma mentalidade do colonizador onde o outro sempre foi visto como nada.
A triste constatação se dá pelo fato de que o colonizador, não é mais o branco ou o capitalista imperialista. Mudando nossa perspectiva do modo macro e trazendo-a para o micro social, perceberemos, com nitidez, que o fenômeno de banalização da vida humana está presente ao nosso redor durante todo o tempo. E suas conseqüências têm tido efeitos graves em nossa sociedade hodierna.
Diariamente os exemplos dessas consequências nos chegam através dos noticiários. Pais que assassinam seus filhos, filhos assassinando pais, políticos assaltando cofres públicos e assassinando milhares de pessoas nas filas dos hospitais e o futuro educacional de milhares de crianças. Jovens de classe média que se sentem no direito de agredir uma mulher por conta de uma suposta impressão de que esta poderia ser uma prostituta e ainda agridem, como se estivessem participando de uma simples brincadeira, alguém que não tem a mesma opção sexual que eles, são alguns dos exemplos tristes e próximos.
Ora, vimos que nada mudou desde os séculos passados até agora. Poderíamos deixar que o “homem das cavernas”, os indígenas, os nativos das tribos africanas, ensinassem para nós, homens “desenvolvidos”, como (con)viver em sociedade de forma “civilizada”, respeitando o próximo.
Enfim, a partir do momento em que o homem olhar o seu próximo não mais como o outro, mas como uma extensão de tudo o que ele é, e se permitir misturar e intercambiar experiências, não haverá superiores ou inferiores, seremos iguais, e começaremos então a repartir o pão, sentaremo-nos em rodas para que um griot conte-nos uma história, faremos pinturas corporais como símbolo do amor, e utilizaremos, também, a escrita para (re)escrevermos a nova história da humanidade.
Texto produzido para o curso de compreensão textual - CEEP/UFRRJ/IM
Tema: A nadificação do outro
A vida,
amiga
menina maravilhosa, me acompanha aonde quer que eu vá.
Cheia de luz e brilho a mostrar caminhos pelos quais posso andar,
amiga perfeita não és,
que me importa?!
Quero o dó do ré,
escrever a história que não foi contada,
ponte para unir mundos distintos
Sem o amor não quero nada
Lugar para descansar não faltará
o mundo sob minha cabeça
A(s) paz(es) ao meu lado a me acariciar
O amor ... um pouco longe,
guardei no coração
Querer...
tudo
só não a razão.
Valéria Lourenço.
Maio/2011
amiga
menina maravilhosa, me acompanha aonde quer que eu vá.
Cheia de luz e brilho a mostrar caminhos pelos quais posso andar,
amiga perfeita não és,
que me importa?!
Quero o dó do ré,
escrever a história que não foi contada,
ponte para unir mundos distintos
Sem o amor não quero nada
Lugar para descansar não faltará
o mundo sob minha cabeça
A(s) paz(es) ao meu lado a me acariciar
O amor ... um pouco longe,
guardei no coração
Querer...
tudo
só não a razão.
Valéria Lourenço.
Maio/2011
sábado, 21 de maio de 2011
Severina
Nossos olhares encontraram-se. E um simples sorriso foi o suficiente para que ela se sentisse à vontade e se sentasse ao meu lado no ônibus.
Por coincidência, desceríamos no mesmo local. A conversa então teve início.
Ali estava ela, uma senhora de olhar doce, voz singela e palavras firmes. Deixei que desabafasse, algo me dizia que ela precisava disso há muito tempo. E então ela contou-me um pouco de sua história. Mãe de 6 filhos, com 16 netos, 2 bisnetos, cuida de um marido acamado há 11 anos e agora descobriu que a doente é ela: está com um câncer.
A palavra “feia” que muitos têm medo de pronunciar, ela também não pronunciou. Continuou... Os filhos não têm paciência com o pai doente, e ela tem medo de morrer e deixá-lo sozinho, pois teme que os filhos o coloquem num abrigo. Aliás, eles já avisaram que o farão.
Sei que deve estar achando esta história muito triste, eu também estava, mas como o ser humano é surpreendente, num lapso de tempo, ela me dá a chave para que a conversa ganhe um novo tom: “Minha filha – seus olhos brilharam, temos que ter mais amor. A humanidade não tem mais paciência nem tolerância com o outro”, foram suas palavras. Em poucos minutos meu coração encheu-se de esperança. O amor, o amor...
Ela, sentindo-se tão bem em ter ali uma interlocutora que só a compreendia com o olhar, as palavras não saíam, a preferência era dela, abriu sua bolsa, mostrou-me seus remédios, o cartão do SUS, tinha consulta marcada no dia seguinte e por fim, não sei o porquê, mostrou-me sua carteira de identidade. E eis que vem a surpresa, ou coincidência, ou destino, eu prefiro chamar de Deus.
Seu nome: Severina, sim, Dona Severina, vida Severina.
Dedico esta história a todas as mulheres Severinas que conheço. A vocês que apesar das lutas e adversidades do dia-a-dia, me dão ânimo, força e vontade de seguir em frente. A vocês que me inspiram. E em especial : Nívia e Tânia.
Esta história é real, vivenciei numa quinta-feira (12/05/2011) no ônibus Nova Iguaçu – Central.
sábado, 30 de abril de 2011
Philos
Platão negro,
plano das ideias perfeito
Olhar...
Pulsa (a)ção
Lugar improvável
Filosofia, café
Tremor
Interprete a ação
Fela,
descreverias esta percussão?
Olhar...
desejo,
alucinação
Valéria Lourenço.
19.04.2011
plano das ideias perfeito
Olhar...
Pulsa (a)ção
Lugar improvável
Filosofia, café
Tremor
Interprete a ação
Fela,
descreverias esta percussão?
Olhar...
desejo,
alucinação
Valéria Lourenço.
19.04.2011
Flor de Lis
Nome de flor recebeste,
Teu lar, agora um jardim.
Lis (Liz),
Doce lírio,
Verás que na vida,
Serás eterna aprendiz.
Um Jardim secreto
cercado de amor e
sorrisos,
Flor,
Aguarda teu caminhar.
Seja Deus teu juiz,
E a paz tua diretriz.
Valéria Lourenco.
02.02.2011
Teu lar, agora um jardim.
Lis (Liz),
Doce lírio,
Verás que na vida,
Serás eterna aprendiz.
Um Jardim secreto
cercado de amor e
sorrisos,
Flor,
Aguarda teu caminhar.
Seja Deus teu juiz,
E a paz tua diretriz.
Valéria Lourenco.
02.02.2011
sábado, 9 de abril de 2011
#10
Lágrimas...
Recuso-me a deixar que caiam do meu rosto
Sentimentos
Recuso-me a expressá-los
Abraços
Recuso-me a doá-los
Palavra
Recuso-me a proferi-las,
Não têm interesse em ouvir
E assim vivendo a vida mesquinhamente,
Passando os dias,
Sem tormentos,
Ou lamentos
Definitivamente sem momentos.
Desse jeito sou incapaz,
não agüento.
sábado, 26 de março de 2011
Daily observations
Não é nenhuma novidade que a língua inglesa tem invadido cada vez mais o nosso vocabulário.
O uso de estrangeirismos promove um intercâmbio na linguagem, isso pode até ser saudável. Mas, o problema maior é quando apesar de termos palavras suficientes em nossa língua usamos palavras estrangeiras, principalmente o inglês, exageradamente. Estou parafraseando meu professor de língua portuguesa Fernando Vieira que sempre cita esse assunto em aula e também meu esposo Emanuel Carvalho que sempre cita esse assunto em casa.
Tudo bem, já li e até me acostumei com o uso de shopping center, blog, home page, feedback, mas nessa última semana senti um medo ao ver a proporção que as coisas estão tomando. Na Via Light, Nova Iguaçu, tem uma igreja em que as letras garrafais anunciam: "ALFA & OMEGA - with Jesus we are more than winners.", e agora digitando esse texto acabo de ouvir na rádio evangélica que ouço com frequência "(...) a igreja que tem the lions face". Oh my God, quero dizer, Oh meu Deus, parace que Deus está cada vez mais globalizado, e só atende agora por palavras em inglês.
Isso me preocupa, pois sou evangélica e ainda não domino essa segunda língua tão bem assim.
Brincadeiras à parte, o uso de estrangeirismos acaba sendo usado como forma de discriminação, pois a língua é poder. Quando em uma palestra, uma reunião, um cartaz, alguém usa termos em inglês indiscriminadamente acaba fazendo com que seu interlocutor, caso ele não domine os idiomas utilizados, não compreenda corretamente a mensagem, e acabe sentindo-se diminuído. Parece que até o meio evangélico está fazendo uso dessa "arma".
Que possamos rever nossos conceitos.
Ah, a tradução do título da postagem é: Observações diárias.
Valéria Lourenço. 26.03.2011
domingo, 6 de março de 2011
Economia criativa
Dia 04/03/2011 assistindo ao programa Sala de Notícias, Canal Futura, deparei-me com uma entrevista de Lala Deheinzelin. Tudo bem que o sobrenome é complicado, e parece de artista estrangeira, mas essa economista brasileira de conversa amigável mostrou ao longo da entrevista pontos que podem ser mudados no nosso país quando o assunto é desenvolvimento sustentável e economia criativa, termo novo para mim até este momento.
Lala, que é do Movimento Crie Futuros, falou de forma simples sobre conhecimento e criatividade. Segundo a economista, no século passado nós tínhamos a economia da escassez, com ouro e riquezas e agora, no século XXI, descobrimos que a indústria criativa, e consequentemente a economia criativa está em primeiro lugar.
A economia criativa caracteriza-se pelo capital social. No nosso país ainda temos falta de capital social, há muitas pessoas fazendo muitas coisas separadas, falta a capacidade de agir de maneira integrada, pensando no coletivo. Essa seria a chave do nosso desenvolvimento.
Lala nos alerta que a “galinha dos ovos de ouro” do novo milênio é a diversidade cultural. E o Brasil como um país rico nesse sentido tem de aprender a fazer uso dessa ferramenta tão farta que possui, e não matar sua “galinha” como tem feito. A diversidade cultural está inteiramente ligada à autoconfiança, e esta por sua vez, ligada à auto-estima. Item ainda em escassez no nosso país.
Uma das grandes dificuldades que temos em atingir estes ideais de desenvolvimento e auto-estima é o simples fato de que as coisas essenciais a essa nova era são intangíveis. Não temos ainda medidores qualitativos para saber quando um trabalho social tira um jovem da rua, muda sua vida e o torna um cidadão de bem. Nossos medidores ainda são quantitativos.
Ainda está sendo criada uma moeda de troca (escambo) para o intangível.
Temos um belo exemplo no Festival Calango* (Cuiabá), onde eles já se utilizam da economia criativa e aceitam o Cubo**, uma moeda válida em 25 dos 27 estados brasileiros.
No entanto, a economista é otimista ao ressaltar que quando pensavam o futuro mundial há muitos anos atrás, os estudiosos viam um lugar cinzento, egoísta e belicoso, mas surpreendentemente temos notado que o futuro pode ser mais verde, mais integrado, plural, miscigenado e mais, muito mais pacífico.
Isso é o futuro.
Michel Serres tem razão, viva a nossa miscigenação.
Fonte: Sala de notícias. Canal Futura. 04 de março de 2011 às 20:30 hs.
Repórter: Cristina Amaral.
Entrevistada: Lala Deheinzelin (economista criativa - Movimento Crie Futuros)
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Querido Lima B.,
sua dor e sua luta ainda ecoam .
Desde que você se foi não mudou muita coisa por aqui.
Queria tanto comemorar seu aniversário este ano de forma diferente,
mas os trezes de maio têm sido sempre iguais.
Esqueci de contar-lhe que a efemeridade é uma das marcas dessa minha modernidade,
talvez seja esse o motivo de nosso esquecimento.
E por falar nisso, meu amigo anarquista, nos achamos tão modernos e livres, mas onde está essa liberdade que nunca chega?
Dê- me um pouco de sua força meu amigo.
Eu em pleno século XXI e você daí, deste século retrógrado, me
expondo deste jeito, falando dos meus medos, da minha vida hipócrita e mesquinha,
da minha sociedade e dos nossos podres poderes.
Volta Lima,
volta através de nós.
Façamos da sua luta a nossa.
Valéria Lourenço.
21.02.2011
sua dor e sua luta ainda ecoam .
Desde que você se foi não mudou muita coisa por aqui.
Queria tanto comemorar seu aniversário este ano de forma diferente,
mas os trezes de maio têm sido sempre iguais.
Esqueci de contar-lhe que a efemeridade é uma das marcas dessa minha modernidade,
talvez seja esse o motivo de nosso esquecimento.
E por falar nisso, meu amigo anarquista, nos achamos tão modernos e livres, mas onde está essa liberdade que nunca chega?
Dê- me um pouco de sua força meu amigo.
Eu em pleno século XXI e você daí, deste século retrógrado, me
expondo deste jeito, falando dos meus medos, da minha vida hipócrita e mesquinha,
da minha sociedade e dos nossos podres poderes.
Volta Lima,
volta através de nós.
Façamos da sua luta a nossa.
Valéria Lourenço.
21.02.2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Doce mar
Sugue minhas forças
Oh grande Gigante,
Leia-se dentro dos meus olhos
És capaz de fazer de meu corpo um livro?
Camões há de invejar-te
Escrevamos nossa epopéia
Banhando-nos nas águas do Tejo
POSSESSIO MARIS
Tua Tétis,
Transformando em Ilha dos Amores
todas as tuas Tormentas.
Valéria Lourenço.
02.02.2011
Oh grande Gigante,
Leia-se dentro dos meus olhos
És capaz de fazer de meu corpo um livro?
Camões há de invejar-te
Escrevamos nossa epopéia
Banhando-nos nas águas do Tejo
POSSESSIO MARIS
Tua Tétis,
Transformando em Ilha dos Amores
todas as tuas Tormentas.
Valéria Lourenço.
02.02.2011
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